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quinta-feira, 14 de maio de 2026

OS DRONES PERDIDOS QUE PREJUDICAM AMIGOS:

Há situações de guerra que parecem escritas por um argumentista cansado de excesso de realismo. A Letónia, um dos aliados mais fiéis da Ucrânia dentro da NATO, acabou mergulhada numa crise política não por causa de um ataque russo direto, mas devido ao impacto de drones ucranianos “perdidos” que decidiram aterrar - ou explodir - em instalações energéticas letãs.

Resultado: não colapsou nenhuma frente militar, não mudou o rumo da guerra… mas caiu a primeira-ministra da Letónia.
A história tem um simbolismo cruel. Enquanto Kiev tenta demonstrar capacidade para atingir alvos profundos em território russo, dois drones "desviam-se", atravessam fronteiras, entram num país aliado e acabam por atingir precisamente infraestruturas energéticas amigas - o tipo de alvo que a Ucrânia normalmente procura destruir do outro lado da fronteira.
Claro que a explicação oficial apareceu rapidamente: foi a eletrónica de desvio dos russos, perdeu-se a navegação, houve desvio de percurso ou interferência de GPS. Tudo plausível ou... inventado. Afinal, a guerra moderna já não se trava apenas com tanques e artilharia, mas também com sinais, satélites, jamming, spoofing e sistemas que confundem máquinas até estas já não saberem onde estão.
O problema é que os humanos continuam a fazer perguntas simples: “Se os drones podiam perder-se, por que razão foram lançados tão perto de fronteiras sensíveis?” E outra ainda mais lógica: “Se perderam o controlo, então quem garantia que não cairiam precisamente onde caíram?”
Não se pode afirmar uma intenção hostil da Ucrânia contra a Letónia. Isso faria pouco sentido estratégico e político. O problema é outro: quando uma guerra começa a depender de enxames de drones de longo alcance, baratos, semiautónomos e vulneráveis a interferências, o risco de transformar aliados em danos colaterais aumenta brutalmente.
E aí surge a verdadeira questão da história: a Rússia não precisou de atacar Riga; bastou dois drones “amigos” perdidos para provocar uma crise governamental dentro da NATO.
A política funciona assim. Muitas vezes os países sobrevivem aos erros estratégicos, mas os governantes não. Os Estados absorvem o choque; os responsáveis pagam a fatura. E foi isso que aconteceu na Letónia: uma combinação de falhas de defesa aérea, fragilidade política interna e embaraço internacional acabou por derrubar quem estava no lugar de Primeira-Ministra.
No meio de toda esta modernidade tecnológica, sobra uma conclusão: talvez antes de fazer voar drones sobre milhares de quilómetros, seja prudente ter a certeza de que eles sabem para onde vão. Porque atacar o inimigo e acabar por incendiar instalações de um amigo não é exatamente a melhor campanha de relações públicas militares.
E numa guerra onde todos falam de “escalada”, talvez a primeira preocupação devesse ser impedir que as armas autónomas comecem também elas a perder o sentido de fronteira, de aliado… e de destino.
Boa tarde!

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