A reeleição de Luís Montenegro como presidente do PSD devia ser um momento de força política. Foi o contrário: foi a certidão de óbito da sua legitimidade. 25,44% dos militantes. Um em cada quatro. Três em cada quatro militantes do próprio partido viraram-lhe as costas.
Nenhum presidente do PSD foi reeleito com tão pouco. Cavaco Silva mobilizava 70% do partido. Passos Coelho, mesmo em lista única, tinha 40-55% dos militantes. Rui Rio, em disputa dura, ainda chegou aos 40%. Montenegro conseguiu 25%. E isto depois de dois anos de governação que só se pode classificar como desastrosa.
Um líder que não convence sequer o seu partido não pode convencer o país. A abstenção nas diretas não foi distração nem “desmobilização de verão”. Foi um voto de desconfiança brutal. Os militantes olharam para dois anos de governo, viram a saúde a colapsar, a habitação a ficar ainda mais impossível, os serviços públicos a degradarem-se, e responderam com a única arma que tinham: não votar. Quando 74,6% do teu partido fica em casa, a mensagem é clara — não te reconhecemos como líder.
E o pior ainda está para vir. O pacote laboral que Montenegro quer aprovar é um ataque direto a quem trabalha. Facilita despedimentos, precariza horários, esvazia a contratação coletiva e entrega de bandeja aos patrões aquilo que levou décadas a conquistar. É um governo que, sem legitimidade no próprio partido, se prepara para governar contra a maioria do país. Um primeiro-ministro com 25% de apoio interno quer rasgar direitos de 100% dos trabalhadores. Se isto não é abuso de poder, não sei o que seja.
O argumento dos 94,8% dos votos expressos é um truque estatístico para esconder o elefante na sala. Legitimidade não se mede só entre quem apareceu. Mede-se na capacidade de chamar as pessoas. E Montenegro falhou. Falhou em mobilizar, falhou em inspirar, falhou em governar. Um primeiro-ministro que entra em congresso com o aval de 14 mil militantes num universo de 57 mil não tem capital político para pedir sacrifícios a 10 milhões de portugueses.
Isto não é só um problema interno do PSD. É um problema democrático. Um país não se governa com 25% de confiança do próprio partido e com um programa laboral feito à medida dos patrões. Governa-se com apoio social, com capacidade de diálogo, com resultados. Montenegro não tem nenhum dos três. Teve dois anos para mostrar obra e mostrou caos. Teve uma reeleição para mostrar força e mostrou fraqueza. Teve a oportunidade de unir e escolheu atacar quem trabalha.
Um partido que aceita ser liderado por quem não consegue nem 1/3 dos seus devia fazer um exame de consciência. Um país que é governado por quem não convence nem o seu partido, e ainda prepara leis contra os trabalhadores, devia exigir eleições. Porque sem legitimidade não há autoridade. E sem autoridade, só há gestão danosa ao serviço de poucos.
Montenegro não caiu ainda porque o sistema partidário protege os fracos. Mas a rua, os militantes e os factos já deram o veredito: este homem não serve para dirigir o PSD, quanto mais Portugal.
Para comparar:
Cavaco: ∼70% dos militantes
Passos: 40-55% dos militantes
Rio: ∼40% dos militantes
Montenegro: 25%
O mais baixo DE SEMPRE.
João d'Oliveira

Sem comentários:
Enviar um comentário