A oferta não chega para todos — e é exactamente aí que a nova ultra-direita entra em acção.
Não para resolver a falta de vagas, mas para a explorar.
Para a transformar numa guerra dos de baixo, com os de baixo.
De repente a creche já não é um direito da criança que mais precisa e mais vulnerável está.
Passa a ser um prémio.
Ganhas se os teus pais trabalharem.
Perdes se não trabalharem.
É assim, simples, brutal.
Como se uma criança de dois anos tivesse mais ou menos valor humano consoante o contrato de trabalho dos pais ou a sua nacionalidade.
Como se nascer num agregado pobre, desempregado, destruído pela vida — fosse uma culpa que a criança tem de pagar.
A perversão moral aqui é tão flagrante que enjoa... tiraram a vulnerabilidade da criança como critério e meteram em cima um julgamento ideológico sobre os pais.
Já não se pergunta qual a CRIANÇA que precisa mais de ser salva...Pergunta-se quem é "merecedor" de ser salvo.
Quem encaixa na moral produtivista e punitivo desta gente.
Se a criança passa fome, vive numa barraca, o pai é alcoólico e desempregado — essa criança deve ficar atrás. Atrás da criança de pais professores com emprego estável, casa própria e frigorífico cheio.
Porque os pais "trabalham".
Porque encaixam no perfil.
Porque merecem o prémio.
E enquanto fazem isso, apagam o problema a montante.
Não discutem porque é que faltam vagas. Não discutem investimento. Não discutem orçamento.
O padrão é cínico ao ponto de ser obsceno.
A mesma direita — com o Chega na linha da frente — que votou em cortes fiscais às empresas mais ricas que custam cerca de 600 milhões de euros por ano ao Estado aparece depois a debater quem "merece" uma vaga numa creche..
Faz as contas: esse dinheiro financiava cerca de 140 mil crianças por ano.
Praticamente duplicava a oferta actual de creches gratuitas em Portugal.
Escolheram retirar esse dinheiro.
E depois usam a falta que ele deixou para dividir quem ficou sem nada.
Escolhem reduzir os recursos que resolveriam o problema e depois instrumentalizam esse mesmo problema para pôr os pobres a atacarem-se entre si.
É sempre a mesma arquitectura: proteger os de cima, pôr os de baixo à pancada uns com os outros.
Em vez de olharem para quem acumula riqueza, para quem recebe benesses fiscais, para quem vive apoiado pela sociedade pagando proporcionalmente menos por ela — olham para o pai desempregado, para a mãe solteira que vive com um RSI, para o imigrante que trabalha na agricultura, nos lares, na hotelaria, e dizem: "o teu inimigo é este ao teu lado".
Não aumentar a oferta.
Não resolver o problema.
Apenas escolher qual a criança que deve ser punida pelo desemprego do pai.
No fundo, o que propõem é uma ideia de sociedade profundamente degradada: o Estado não protege quem mais precisa, recompensa quem melhor se encaixa numa hierarquia moral arbitrária.
A criança deixa de ser uma criança.
Passa a ser o espelho disciplinar dos pais.
O filho de um trabalhador deve ter prioridade porque os pais "produzem".
O filho de um pai desempregado, alcoólico, afundado na pobreza — esse que fique para trás.
Que aprenda cedo o lugar que lhe cabe...que fique com os pecados dos seus pais.
Isto não é racionalidade.
Não é justiça. Não é mérito.
É darwinismo social embrulhado em populismo de tasca.
E ainda metem os imigrantes ao barulho.
Pessoas que vivem cá, trabalham cá, descontam cá, sustentam sectores inteiros da economia portuguesa — passam a ser apresentadas como concorrentes pelos poucos lugares que sobram.
A mesma direita que odeia o socialismo que criou as creches tenta agora convencer-te de que a culpa de não haver vagas é de quem também precisa delas.
Nunca de quem cortou. Nunca de quem desinvestiu. Nunca de quem protegeu os de cima enquanto fingia preocupar-se com os de baixo.
É este o truque central da ultra-direita: pegar num direito social que não chega para todos e convertê-lo num ringue. Seja o SNS, a habitação, as creches, a vida comum...é sempre o mesmo modus operandi.
Fazer-te apontar o dedo para baixo, nunca para cima.
Fazer-te odiar quem disputa contigo as migalhas — para que nunca perguntes, quem ficou com o bolo todo.
Não sejas mais um domesticado... Questiona-te quem está realmente a ganhar com isto.
E não, não é o imigrante, o cigano ou a mãe solteira a sobreviver com um RSI de 240€

Sem comentários:
Enviar um comentário