Passou um ano sobre o grande apagão que mergulhou Portugal e Espanha numa paragem súbita, inesperada e, para muitos, inquietante. Durante horas, ficámos confrontados com uma realidade que raramente consideramos: a fragilidade de um sistema do qual depende praticamente tudo - da água que sai da torneira ao funcionamento dos hospitais, das telecomunicações à economia.
Um ano depois, a pergunta relevante não é o que aconteceu. É outra: o que foi realmente feito desde então - e, sobretudo, o que continua por fazer? A resposta, por desconfortável que seja, é clara. Muito foi anunciado. Alguma coisa foi iniciada. Mas o essencial - aquilo que verdadeiramente muda a robustez do sistema - continua, em grande parte, por concretizar.
Houve melhorias - mas frágeis. Os operadores passaram a trabalhar com margens de segurança mais conservadoras. Os protocolos de resposta foram revistos. A coordenação entre entidades melhorou. Tudo isto é útil - mas tudo isto é também, em larga medida, invisível e insuficiente. Porque não altera a estrutura física do sistema nem elimina as suas vulnerabilidades de base. O ponto central é outro: as grandes medidas estruturais continuam no papel ou em fase inicial.
O reforço do armazenamento de energia - repetidamente apresentado como peça-chave para estabilizar uma rede cada vez mais dependente de fontes renováveis - ainda não saiu do plano. Fala-se em centenas de megawatts de baterias, mas, na prática, a capacidade instalada continua residual. O leilão que deveria lançar esse salto permanece por concretizar. E sem armazenamento significativo, o sistema continua exposto a oscilações rápidas que não consegue amortecer.
Também os investimentos na rede - equipamentos de controlo de tensão, compensadores síncronos, sistemas avançados de monitorização - estão longe de estar plenamente operacionais. Foram anunciados, alguns adjudicados, outros em instalação. Mas ainda não formam um todo funcional capaz de responder, em tempo real, a perturbações de grande escala.
Mesmo na capacidade de recuperação do sistema - o chamado black start, essencial para reerguer a rede após um colapso - há progresso, mas não há ainda evidência de um sistema plenamente testado, robusto e autónomo.
E depois há o problema estrutural que permanece praticamente intocado: o isolamento energético da Península Ibérica. Continuamos com um nível de interligação com o resto da Europa muito abaixo das metas definidas. Este é um fator crítico, porque limita a capacidade de absorver choques externos e de recorrer a apoio em momentos de crise. E, no entanto, um ano depois, não há obra feita - apenas intenção política.
Tudo isto não significa inação. Significa, sim, que estamos numa fase intermédia: entre o diagnóstico e a execução. E essa fase, embora compreensível do ponto de vista técnico e administrativo, não reduz de forma significativa o risco no curto prazo. O sistema hoje está ligeiramente mais preparado para reagir - mas não substancialmente mais preparado para evitar. E a atual crise energética nos combustíveis fósseis aumenta a probabilidade de se agravarem o apagões e reduz a capacidade de resposta quando acontecem.
E esta distinção é tudo menos semântica. Reagir melhor significa recuperar mais depressa. Evitar melhor significa não cair. Um ano depois, avançámos sobretudo no primeiro ponto. O segundo continua em aberto.
Depois, em certas regiões do país as tempestades agravaram os problema elétricos. E projetos de rede elétrica não se fazem em meses. Exigem por isso, mais investimento, mais licenciamento, coordenação técnica complexa e muito mais pessoal especializado. Quantos técnicos se especializaram no último ano? Um ano depois, discutem-se baterias, redes e investimentos - mas quase não se discute quem vai operar, estabilizar e recuperar o sistema quando falhar. E:
- formar um técnico básico → 1–3 anos
- formar um engenheiro → 5 anos
- formar um especialista em rede → 5–10 anos de experiência
Reconhecer essa realidade não dispensa outra constatação: o tempo entre o alerta e a execução é, por definição, um período de exposição ao risco. Talvez o maior problema não seja técnico, mas de percepção. O apagão foi tratado como um evento excecional, quase irrepetível. Mas não foi. Foi antes um sinal - claro - de um sistema em transição, mais complexo, mais interdependente e, por isso mesmo, mais vulnerável a falhas em cascata. Ignorar isso seria o verdadeiro erro.
Um ano depois, não estamos no mesmo ponto. Mas também não estamos, ainda, num ponto seguro. E é precisamente isso que importa discutir em vez de se discutir os investimentos de apoio às guerras e a Leis Laborais que prejudicam os trabalhadores.

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