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domingo, 26 de abril de 2026

Sim, é preciso continuar a celebrar o 25 de Abril:

Sim, é preciso continuar a celebrar o 25 de Abril.

Todos os anos e, se possível, todos os dias.

Porque o 25 de Abril é libertação, é igualdade perante a lei, é a liberdade de dizer o que pensamos, de votarmos em quem quisermos – incluindo em partidos que se opõem aos valores de Abril, algo que a ditadura nunca teria permitido – e de lutarmos pelos ideais que nos guiam.

25 de Abril é Democracia.
É a paz, o pão, habitação, saúde e educação.
Para todos, todos, todos!

Sim, ainda há caminho a fazer para cumprir Abril. Mas não te deixes iludir pelo cherry picking dos saudosistas da ditadura, cuja estratégia assenta em explorar as debilidades da nossa democracia para te bombardear com a maior mentira dos últimos 52 anos: antigamente é que era bom.

Só que não era.

Antigamente éramos mais pobres.
Tínhamos mais fome.
Havia crianças descalças.
Havia uma nação de analfabetos.
Porque a educação era um privilégio.
A saúde não era para todos.
A habitação da maioria era miserável.
E a paz, como o respeito, só existiam como consequência do medo.

E não, não eram apenas a miséria e o medo que imperavam.

Era a violência.
A censura.
A tortura e a prisão política.
A guerra que triturava os miúdos do interior e poupava os filhos das elites do regime.

E sim, o Estado Novo era um regime profundamente corrupto.
Um regime de cunhas, de favores, de tachos e de negócios públicos entregues sempre aos mesmos. Os mais ricos entre os mais ricos. Muitas das mesmas famílias que hoje dominam a economia nacional e financiam a extrema-direita. Aqueles que comiam à mesa com Salazar e o seu regime, como o avô de Ricardo Salgado.

Os mesmos que participaram e abafaram o escândalo de orgias e pedofilia do Ballet Rose.

Antigamente só era bom para a cúpula do regime e para as elites que se deitavam com ele.

Para os restantes foi uma longa e sinistra noite de 48 anos, derrubada pelo “dia inicial, inteiro e limpo”.

É claro que foram cometidos excessos no pós-revolução. Como em todas as revoluções que derrubam ditaduras. Décadas de opressão geram sempre, sempre, acções de vingança. No mundo ideal dávamos as mãos, cantávamos Os Meninos de Huambo e ia cada um à sua vida. Mas o mundo não é nem nunca foi o ideal. E Portugal, no momento imediatamente após a revolução, teve os seus problemas. Não rolaram cabeças como em França, onde a guilhotina não teve descanso, não tivemos uma guerra civil, apesar de alguns guerrilheiros que por aí andaram, nem morreram mais de 1000 pessoas, como na Roménia, em 1989, quando o regime do tirano Ceaușescu caiu. Foi, estatisticamente, uma das revoluções mais tranquilas da história das revoluções.

Estes excessos, porém, estão agora a ser usados pelos inimigos do 25 de Abril, não apenas por razões ideológicas, mas como parte de um modelo de negócio rentável. O mesmo que, de forma predatória, instrumentaliza miúdos para odiar as mulheres e culpá-las das suas fragilidades. Mas o fim é sempre o mesmo, e todos os regimes contemporâneos de extrema-direita, da Rússia de Putin à América de Trump, tiveram sempre o mesmo resultado: corrupção, aumento das desigualdades, violência política, subtracção de direitos civis, guerras e morte.

Sim, é preciso continuar a celebrar o 25 de Abril.

Não por razões litúrgicas, mas porque o 25 de Abril não foi no tempo da revolução francesa ou americana. Foi no nosso tempo. Mesmo daqueles que, como eu, nasceram 10 ou mais anos depois da revolução, e não são menos filhos dela por isso. É preciso celebrá-la e não deixar que a memória da revolução se perca, ou seja manipulada pelos Putins, Trumps e Orbáns que temos por cá.

Reguemos os cravos todos os dias.

Ainda somos, e continuaremos a ser, a maioria. Apesar das nossas diferenças, porque a democracia não é, nem deve ser homogénea. Mas todos cabem dentro dela. Mesmo aqueles que a odeiam e querem destruir. Sejamos mais fortes que eles. Muitos mil para continuar Abril.

25 de Abril, SEMPRE, fascismo nunca mais! 

25/04/2026 by  

Do blogue Aventar

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