Quatro anos depois de fevereiro de 2022, a guerra já não é apenas uma guerra. É um espelho. E como todos os espelhos geopolíticos, não reflete apenas tanques e mapas - reflete erros estratégicos, ilusões acumuladas e a arrogância estrutural de blocos que acreditaram poder moldar a história à sua vontade.
Tudo começou muito antes de 2022. Muito antes das colunas militares atravessarem a fronteira da Ucrânia. Começou quando o espaço pós-URSS deixou de ser visto como zona de transição e passou a ser tratado como território disputável. Quando a expansão da NATO deixou de ser apenas um movimento defensivo e passou a ser percebida - em Moscovo - como avanço estrutural sobre a sua profundidade estratégica.
E depois veio 2014. A Crimeia - onde a frota russa já estava instalada há décadas - mudou de estatuto. O Donbass entrou em combustão lenta. Os acordos de Minsk tornaram-se papel diplomático sem executor real. A guerra começou ali, mas o mundo fingiu que ainda não era guerra.
Quatro anos depois da invasão em larga escala, a narrativa ocidental inicial - “sanções devastadoras”, “colapso iminente”, “isolamento total” - não produziu o desfecho prometido.
A Rússia não colapsou. Adaptou-se. Redirecionou energia para a Ásia. Expandiu laços com o BRICS. Militarizou a economia. Absorveu sanções. Converteu-se numa fortaleza estratégica. Tornou-se mais dependente da China? Sim. Mais fechada? Também. Mas não implodiu. A expectativa de que a pressão económica produziria mudança de regime revelou-se, no mínimo, otimista.
E a Europa? A União Europeia perdeu gás barato. Perdeu previsibilidade energética. Perdeu competitividade industrial relativa. Ganhou inflação, fragmentação política e um debate interno permanente sobre “até quando”. Reuniões sucessivas. Declarações firmes. Pacotes adicionais. Mais ajuda. Mais sanções. E sempre a sensação de que a solução está na próxima cimeira.
A ironia estratégica é esta: ao procurar enfraquecer Moscovo, a Europa expôs a sua própria vulnerabilidade estrutural - energética, industrial e até psicológica.
E Washington? Sob a administração de Joe Biden, a aposta foi clara: sustentar Kiev, preservar a coesão atlântica e transformar a Ucrânia num ponto de contenção estratégica. A leitura crítica sustenta que houve algo mais: a crença de que a guerra prolongada poderia esgotar a Rússia internamente.
Mas guerras de desgaste são jogos perigosos. Elas não obedecem a planos lineares. E os EUA, enquanto projetam poder externo, enfrentam fraturas internas profundas - políticas, sociais e fiscais - que limitam a capacidade de sustentar conflitos indefinidamente.
E a Ucrânia? É o território onde a tragédia é concreta. Economia devastada. Infraestruturas destruídas. Dependência financeira externa. Mobilização prolongada. Um Estado que sobrevive porque é financiado. O discurso moral internacional convive com uma realidade brutal: quanto mais a guerra se prolonga, mais o país se esgota.
Há quem diga que tudo isto poderia ter sido evitado se o Ocidente tivesse reconhecido as “linhas vermelhas” russas. Mas também há quem sustente que ceder teria sido legitimar esferas de influência e sacrificar soberania. A verdade desconfortável é que ambas as leituras contêm elementos válidos, mas a realidade prova que a segunda delas criou mais influência da Rússia no resto do Mundo. Ou seja, o medo do capitalismo ocidental de que a Rússia fosse demasiado boa economicamente para a Europa, transferiu-se para a economia global: China, Índia, Irão, etc.
Mas a expansão ocidental foi percebida em Moscovo como ameaça existencial. E, se a reação russa desprezou o princípio de integridade territorial foi porque temeu exatamente o contrário para o seu território e... antecipou-se. Duas lógicas estratégicas incompatíveis colidiram - e a Ucrânia tornou-se o campo de prova.
Quatro anos depois, o mundo parece mais dividido. De um lado, o bloco atlântico reforçado militarmente, mas economicamente pressionado. Do outro, uma Rússia mais isolada do Ocidente, porém integrada num eixo euroasiático em consolidação. E ao fundo, a China cresce, observa, negocia, acumula influência e evita envolvimento direto. A Multipolaridade apareceu e cresceu? Mas, se ainda não está estável, para lá caminha.
A tese mais controversa é esta: a continuidade da guerra já não depende apenas de Moscovo. Depende da disposição do Ocidente em reconhecer que a estratégia inicial - pressionar até à exaustão - não produziu a rendição esperada. Se a meta implícita foi forçar a Rússia a ceder ou fragmentar-se, o cálculo falhou. Se a meta foi preservar a Ucrânia como Estado soberano, o custo humano e material é colossal. Se a meta foi enfraquecer Moscovo, o resultado foi ambíguo: enfraquecida no Ocidente, viu-se reforçada na Ásia e no resto do Mundo.
Quatro anos depois, resta uma constatação irónica: O conflito que deveria reafirmar a ordem internacional acelerou a sua fragmentação. A tentativa de contenção produziu consolidação alternativa. A guerra que prometia solução rápida transformou-se em estrutura permanente.
E talvez a pergunta mais desconfortável não seja “quem ganhará?”, mas sim: Quem terá coragem de reconhecer que o erro estratégico foi mais do ocidente do que do coletivo - e que, embora nenhuma das potências envolvidas saia ilesa da sua própria convicção, quem está a pagar mais pela incongruência é a Europa e é, sobretudo, a Ucrânia?
Porque a História raramente pune apenas um lado.

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