(João Gomes, in Facebook, 06/02/2026)

Há momentos em que a natureza parece querer impor-se à vontade humana, lembrando-nos da nossa fragilidade coletiva. Tempestades, cheias, destruição de infraestruturas, isolamento de populações – tudo isso exige resposta rápida do Estado, solidariedade social e capacidade de organização. O que não pode exigir é a suspensão da democracia.
Em Portugal, a lei é clara: após a primeira volta das eleições presidenciais, não havendo vencedor, a segunda volta deve ocorrer vinte e um dias depois. Não é uma sugestão política, nem uma cláusula opcional moldável ao sabor das circunstâncias. É uma regra jurídica que protege algo essencial – a previsibilidade do poder democrático e a igualdade entre cidadãos. Quando se começa a admitir exceções fora do quadro legal, abre-se uma porta perigosa onde a urgência do momento pode transformar-se em conveniência política.
Pedir o adiamento das eleições por causa de tempestades pode soar prudente, até humano. Mas, numa democracia madura, a pergunta correta não é se se vota, mas como garantir que todos possam votar em segurança. A diferença é decisiva. Suspender o ato eleitoral fragiliza a legitimidade democrática; adaptá-lo reforça-a.
Nas localidades afetadas, o ambiente eleitoral não será o ideal – talvez nunca seja. Haverá estradas danificadas, energia intermitente, famílias ainda a recuperar perdas. Justamente por isso, o voto ganha um significado mais profundo: não apenas escolher um Presidente, mas afirmar que a comunidade resiste, que a vida coletiva continua, que a lei não cede perante a adversidade.
Aqui, o papel do Governo e do Estado é inequívoco. Compete-lhes mobilizar meios logísticos, transporte gratuito onde necessário, mesas de voto alternativas, apoio às populações isoladas, coordenação com autarquias e forças de segurança. Não para adiar a democracia, mas para a tornar possível. A proteção civil não substitui o sufrágio; deve servi-lo quando as circunstâncias o ameaçam.
Também os principais atores políticos têm responsabilidade acrescida. Num tempo de crise, a tentação de instrumentalizar o medo ou a dificuldade logística para ganho partidário é real. Resistir a essa tentação é prova de maturidade democrática. Defender o direito ao voto – mesmo quando o contexto é adverso – é defender algo maior do que qualquer candidatura.
A história mostra que povos sujeitos a guerras, catástrofes e privações muitas vezes encontraram no ato de votar um gesto de unidade e esperança. Não porque ignorassem o sofrimento, mas porque compreendiam que abdicar da escolha coletiva seria acrescentar perda à perda.
Adiar eleições fora do quadro legal não é prudência: é erosão silenciosa da democracia. Cumprir a lei, garantir condições, mobilizar o país e votar – isso sim, é resiliência.
No fim, talvez a verdadeira questão seja simples: se a tempestade pode derrubar árvores e postes, não deve poder derrubar direitos. E entre todos eles, poucos são tão fundamentais como o direito de escolher, em liberdade, quem nos representa.
Do blogue Estátua de Sal
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