É da torre mais alta do meu pranto
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.
Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e põe a nu a espádua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.
É da voz do meu povo uma criança
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.
Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.
- Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'
Poeta e declamador, escreveu mais de seiscentos poemas para canções. É conhecido sobretudo por ter escrito os poemas de quatro canções vencedoras do Festival RTP da Canção que foram apuradas para representarem Portugal no Festival Eurovisão da Canção.
É de assinalar a sua colaboração como letrista de fados e canções interpretados por Amália Rodrigues e Carlos do Carmo.
Publicou alguns poemas em antologias na sua juventude, mas a sua verdadeira estreia literária deu-se com a publicação da obra ‘A Liturgia do Sangue’ (1963). A sua obra situa-se no movimento estético do Novo Realismo, um movimento artístico que se desenvolveu na Europa – sobretudo centrado em França - no final dos anos 50.
Morreu em Lisboa, a 18 de janeiro de 1984, com apenas 46 anos de idade.
LUSA

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