Um dos clichés mais usados para atacar o inaudito acordo parlamentar que PS, PCP e BE fizeram em 2015 – pela primeira vez, desde o 25 de Abril, permitindo que um Governo socialista minoritário tivesse viabilidade à sua esquerda – é o do “abraço do urso”. A expressão sugere que bloquistas e comunistas teriam grandes prejuízos ao apoiarem um Governo socialista, enquanto o PS ficaria incólume e a desfrutar da situação. Logo no começo da XIV legislatura, o BE decidiu livrar-se desse abraço, passando para a oposição. Em 2021, o PCP igualmente se escapuliu, levando a que o urso caísse desamparado por falta de apoio.
Nesta imagem repetida à exaustão na campanha do Bloco desde 2019, o PS aparece como usurpador, causando prejuízo a quem só lhe queria bem. No infantilismo do argumento, bloquistas e comunistas chegam a repetir que António Costa só foi primeiro-ministro em 2015 porque eles o permitiram. Donde, o PS está em dívida e devia fazer-lhes as vontades. Como se recusou, eles fartaram-se de tanto engano, tanta frustração, e castigaram-no com o chumbo do Orçamento e eleições num dos picos da pandemia. Para ele deixar de ser arrogante, manhoso. Para aprender a ceder à esquerda pura e verdadeira.
Mas poderiam comunistas e bloquistas ter recusado o convite de Costa para um acordo parlamentar em 2015? Seria tal concebível, voltarem a ser aliados de Passos Coelho depois do chumbo do PEC IV e da Troika ter aterrado na Portela, a que se seguiu uma governação de austeridade fanática? Obviamente, tal cenário talvez levasse a motins nas suas sedes partidárias, seria o fim do mundo em cuecas tamanha a revolta de militantes e simpatizantes. Pelo que a solução de acordo parlamentar encontrada não foi um favor ao PS e a António Costa como a sua patética demagogia apregoa, foi antes uma urgente adaptação de sobrevivência depois da irresponsabilidade trágica de Março de 2011.
Para lá de BE e PCP anunciarem que se estão a marimbar para o tal “povo” de que se consideram proprietários, preferindo interromper a legislatura e voltar a colocar o poder à disposição da direita, o resultado das eleições levou aqueles que fizeram hipócrita, sistemática e cínica campanha contra o abraço do urso a terem de arrastar agora a sua macambúzia figura de urso. Fica como pequeno consolo.
POR VALUPI
Do blogue Aspirina B
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