O MEU AMIGO ORLANDO
Tenho pensado muito no meu amigo Orlando da Costa. De resto eu lembro-me sempre muito dele e faz-me muita falta. Se ele ainda cá estivesse, o que nós não teríamos conversado nestes últimos dias…
De ascendência goesa, Orlando da Costa era comunista, foi preso, foi um dos escritores portugueses com mais livros apreendidos pela censura — e sempre o vi com aquele sorriso, aquela tranquilidade -- e aquele cachimbo pendurado na boca.
O Orlando da Costa foi um grande escritor, premiadíssimo — e hoje ninguém se lembra dele!! Por isso eu faço aqui um apelo às editoras para que reeditem os seus livros!!
Durante muito tempo escreveu sobretudo poesia (para mim ele é um grande poeta, lembro-me sempre de um grande poema que ele dedicou à minha prima Maria Lamas, que começa “amiga te chamamos/ mãe te chamaríamos…”) — mas depois dedicou-se mais ao romance e ao teatro — muito bom em todos os géneros. Pelo menos editem os mais conhecidos: “O Signo da Ira”, o “Podem Chamar-me Eurídice “ e “Como estão os Cravos Hoje?”
O Orlando da Costa passava muito tempo em nossa casa. Tinha imensa paciência para os meus filhos, então miúdos, e eles gostavam muito dele, porque ele contava-lhes histórias… Mas um dia o meu filho André, ia ele a meio de uma história, interrompeu-o e disse-lhe, apontando para o cachimbo: “não sabe que isso faz mal? Não sabe que pode morrer?”
E ele, “tens razão, meu filho, tens razão!”
E a partir desse dia, em nossa casa, ele nunca mais fumou. Nestes últimos dias tenho-me lembrado muito dele. E onde quer que ele esteja, tenho a certeza que está a sorrir para nós, muito feliz por ver o seu filho António chegar a primeiro-ministro com maioria absoluta.
Alice Vieira
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