São inúmeros os exemplos, históricos e actuais, que eu poderia apontar, de marginalização de dissidentes em diferentes sociedades democráticas ocidentais, inclusive em Portugal. Mas enunciarei apenas três exemplos mais conhecidos, que ocorreram nos EUA, por me parecerem particularmente significativos.
1 - O primeiro exemplo é o de ISIDORE FEINSTEIN STONE (1907-1989), mais conhecido como I. F. STONE, que no final da II Guerra Mundial era um dos mais célebres jornalistas americanos, convidado regularmente para os telejornais e com acesso fácil aos círculos do poder. Todavia, depois de ter criticado o programa político do presidente Truman e a criação da NATO, I. F. Stone desapareceu subitamente da paisagem mediática, arrastado pela vaga de histeria anti-comunista. Privaram-no, por assim dizer, do seu estatuto de pessoa (passando a ser considerado «persona non grata»).
Mas I. F. Stone era um jornalista e escritor de grande dignidade e coragem. Nunca baixou os braços. Nem esqueceu o que dissera numa das suas célebres fórmulas sarcásticas: «todos os governos são dirigidos por mentirosos». O FBI colocou-o sob vigilância apertada. Em Fevereiro de 1950, numa manifestação contra a bomba H, I. F. Stone tomou a palavra e começou assim o seu discurso: «Agentes do FBI, companheiros subversivos…». De outra vez, foi expulso do National Press Club, ao aparecer com um antigo juiz negro do Tribunal Federal para tomar o pequeno-almoço, que lhes foi recusado. Como resposta, Stone não descansou enquanto não se inscreveu como sócio do clube dos jornalistas negros.
2 - O segundo exemplo é o do historiador e activista HOWARD ZINN (1922-2010), autor de «Uma história popular dos Estados-Unidos», já traduzida e celebrada em várias línguas. Howard Zinn conta a história do ponto de vista dos Ameríndeos, dos imigrantes, dos escravos, das mulheres, dos pobres, dos anarquistas e comunistas perseguidos, dos abolicionistas, dos militantes contra a guerra e dos líderes dos movimentos dos direitos civis. Foi alvo, por isso mesmo, de duras críticas de vários colegas historiadores, por não ter respeitado o costume de escrever a história do ponto de vista dos grandes deste mundo.
Howard Zinn chegou a ser denunciado por uma vizinha, que achava que ele era comunista (coisa que ele nunca foi), e por um informador do FBI interessado em organizar uma campanha para afastar Zinn do seu posto de professor de História na Universidade de Boston. Seis meses após a sua morte, em Janeiro de 2010, o FBI, que o considerava uma ameaça, tornou público um 'dossier' de 423 páginas, abrangendo os anos de 1948 a 1974 (ano do fim da guerra do Vietname, contra a qual ele sempre se manifestou), constatando-se que chegou a ser seguido, durante um certo período, por cinco agentes secretos.
3 - O terceiro exemplo é o de RALPH NADER (1934), famoso advogado dos consumidores e ambientalista, que começou por ser um jornalista de investigação de grande talento e seriedade – conforme, aliás, o atestam os vários trabalhos de investigação que publicou, sobretudo o 'best-seller' intitulado "Unsafe at any speed" (1965), que causou a ira dos patrões da indústria automóvel, sobretudo da General Motors, que fabricava, precisamente, a mais insegura e perigosa das viaturas ligeiras desse tempo (o «Corvair»).
Classificado como «persona non grata», após ter sido considerado (em 1973) uma das cinco personalidades mais respeitadas e influentes dos Estados Unidos da América, a queda de Ralph Nader é, de facto, um impressionante exemplo de campanhas orquestradas pela plutocracia e pelas grandes empresas - General Motors, companhias petrolíferas, industria farmacêutica - neste caso para calar e esmagar um genuíno defensor dos direitos dos consumidores e da causa ambiental, que se atrevia a pôr a nu as práticas abusivas, as fraudes e o excessivo poder das grandes corporações industriais... Ralph Nader acabaria por ser banido dos jornais, das rádios e das televisões, tal como do próprio processo político, após a eleição de Ronald Reagan, quando as grandes empresas praticamente já tinham tomado conta do Estado.
Mas vale a pena contar como é que o então director do "The New York Times", Abe Rosenthal, ultra-conservador e bastante reaccionário, engendrou um esquema para impedir a publicação de textos de Ralph Nader. Não satisfeito por ter impedido a publicação no jornal de citações de intelectuais como Noam Chomsky (outro dissidente que foi posto á margem), Abe Rosenthal decretou que nenhum artigo baseado em investigações efectuadas por Ralph Nader seria publicado sem a réplica das empresas em causa. Imediatamente informadas desta nova política editorial, claro que essas empresas passaram a recusar sistematicamente fazer comentários àquelas investigações, matando à nascença qualquer projecto de artigo sobre elas.
Fechadas as páginas do "The New York Times", os outros órgãos de informação mais importantes, e mesmo os jornais on-line, nunca mais se sentiram na obrigação de publicar quaisquer investigações da autoria de Ralph Nader.
Saliente-se, todavia, que o Congresso dos EUA adoptou, entre 1966 e 1973, uma série de importantes leis relativas à protecção dos consumidores, tendo Ralph Nader contribuído praticamente para todas elas. Trata-se de um conjunto impressionante de 25 leis que transformaram a paisagem política americana em vários domínios: sobre a segurança rodoviária e a segurança dos veículos automóveis; sobre a inspecção das carnes e das aves de capoeira; sobre a segurança dos oleodutos; sobre a segurança dos produtos embalados, a segurança da saúde e a segurança no trabalho.E ainda: a revisão das leis sobre a inflamabilidade dos tecidos; a lei sobre a qualidade do ar; a lei sobre a poluição da água; a criação da Agência de Protecção Ambiental e a criação de um Conselho do Meio Ambiente na própria Casa Branca.
Claro que valeu a pena o corajoso combate de Ralph Nader! Todavia, o facto de ter sido riscado dos principais órgãos de comunicação social e politicamente marginalizado, foi um aviso que terá desencorajado muitos outros de trilhar os caminhos da dissidência.
Alfredo Barroso
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