Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Começa a semana com isto:

Glosando o que diz o Júlio acerca de não haver nazis em Portugal, dá para acrescentar que também não existem xenófobos, racistas e fascistas neste pedacito da Europa. Isto porque não sabemos de ninguém que tenha um qualquer projecto político que assuma explicitamente essas categorias e valores. Estamos é rodeados de democratas, sempre prontos a invocar o querido “povo” que juram defender muito melhor do que os não democratas que concorrem com eles pelo poder político. Aliás, como disse alguém avisado, “o fascismo nunca existiu”.

Porém, o fascismo não precisa de existir com fascistas para ter existência. Basta que se apliquem as suas tácticas para se tornar potencial e actual. E qualquer um as pode aplicar numa democracia, como se começou a ver exuberantemente a partir da crise económica de 2008 em várias geografias de diferentes continentes. Por cá, a direita portuguesa cavalgou a onda populista de ataque à democracia representativa e ao Estado de direito e alinhou de forma obscena com golpadas judiciais e com o terrorismo mediático – instrumentos que se alimentam e protegem mutuamente e que já têm mais de 15 anos consecutivos de perseguição e ataque a políticos do PS, os quais são depois tratados nos ecossistemas mediáticos da direita como o “inimigo” que se dedica ao crime e com quem não se deve ter qualquer entendimento. Em 2010, Passos Coelho declarou que admitia ver políticos presos por opções políticas, assim fazendo eco das correntes subterrâneas na oligarquia que planeavam a prisão de Sócrates desde a queda do BCP e que lançaram o Face Oculta precisamente com esse fim.

André Ventura, portanto, não é fascista. Ele é apenas a versão folclórica, o pináculo grotesco, do que se fez nos anos anteriores a ter sido criado e promovido pelo PSD. Daí dizer exactamente o mesmo acerca da “corrupção” que se pode ler nos editoriais e comentadores da Cofina, da SIC, do Expresso, do Público, da TVI/CNN, do Observador, da RTP, de tutti quanti. O mesmo que ouvíamos a Pacheco Pereira no auge da sua obsessão com Sócrates. Então, porque há um qualquer mercado eleitoral com anos e anos de fertilização, ele acrescenta-lhe outros condimentos que os restantes não quereriam nem podem exibir: perseguição a minorias e estrangeiros, exploração da temática dos abusos sexuais de menores, recuperação da simbólica do Estado Novo e das ditaduras fascistas, etc.

Mas o caso mais sofisticado, e por isso o mais grave, da utilização dos recursos ideológicos do fascismo está personificado no João Miguel Tavares. Trata-se de um fulano a quem saiu o Euromilhões na forma de um processo contra si por iniciativa enigmática de Sócrates. A partir daí, especializou-se nesse filão onde havia, e continua a haver, muito dinheiro para ganhar. Claro que ele não é fascista nem nada que se pareça, a nossa senhora do Caravaggio que me castigue se sequer pensar em tal. Não, nada disso. Acontece-lhe ser um puro liberal puro. Tão puro, tão destilado e filtrado, que o próprio liberalismo foi-se para o esgoto a céu aberto onde é uma vedeta. Daí alinhar com os agentes da Justiça criminosos e aproveitar os seus crimes para despachar serviço. Daí apelar à prisão de políticos que não grama, haja ou não provas para tal. Daí permitir-se insultar, ofender e caluniar a partir de extractos de conversas privadas de que ele ignora os contextos e as causalidades. Daí fazer campanha a favor da violação da Lei por parte de magistrados desde que isso permita destruir quem ele considere inimigo político. Daí usar uma retórica populista e decadente onde trata a Assembleia da República como um antro de corruptos dedicados a aprovar leis para se protegerem se forem apanhados por corrupção. Daí se considerar um herói que faz frente ao imperialismo intelectual da esquerdalha e consegue falar ao coração dos saudosistas do salazarismo. Daí fazer campanha para que o Chega seja um parceiro viável do regresso da direita ao poleiro.

Quando Marcelo o escolheu para presidir ao 10 de Junho não ficámos tão-só perante uma decisão ridícula, aberrante e afrontosa. Convido os curiosos a reler o seu discurso à luz das tácticas do fascismo que o vídeo acima elenca. Não há uma paridade perfeita, nem lá perto, evidentemente. Mas há outra coisa, aquilo que o Jerónimo gosta tanto de repetir enquanto espera pelos amanhãs que cantam: “farinha do mesmo saco”. Graças a um Presidente da República bufão, um caluniador profissional levou o fascismo larvar para o palco do “Dia de Portugal”. Não foi um descuido, foi um programa.

 POR VALUPI

Do blogue Aspirina B

Sem comentários:

Enviar um comentário