A palavra “propaganda” é geralmente usada de forma pejorativa, com o sentido de “manipulação”, e tendo como fatal herança a figura de Goebbels. Mas ela é, originalmente, neutra, com significações relativas à agricultura e à difusão de informações. Igualmente se pode reconhecer nesse termo uma aplicabilidade positiva, tomando-o como “persuasão” em contexto político. Idealmente, na ágora de todas as democracias, cada candidato a governar não só pode como deve expor as suas intenções, as suas razões, o seu plano, o programa para o mandato. Nesse sentido, tudo no seu discurso é uma diligência de persuasão para obter a preferência, o voto, da assembleia eleitoral. A democracia, portanto, favorece quem melhor persuada os concidadãos – sendo essa a essência mesma de se considerar o regime onde a liberdade de cada um e da comunidade melhor se pode realizar.
Precisamente por causa da vantagem que a democracia dá, aprioristicamente, aos mais competentes, os menos competentes, e ainda mais os incompetentes, optam por não concorrer com os primeiros no mesmo plano discursivo; pois sabem que, com grande probabilidade, ou até certeza, iriam perder. Em vez disso, concentram-se no ataque à competência e no boicote às mensagens dos competentes. É daqui que vem a negatividade associada à propaganda, posto que a enormíssima maioria dos candidatos é menos competente, e grande parte é retintamente incompetente, para chegar ao poder só através da persuasão. Então, de acordo com os meios que tiverem à disposição, recorrem a várias tácticas para deturpar a relação da assembleia eleitoral com os candidatos, maculando os adversários e fantasiando os candidatos próprios. As forças que assim se estimulam nos públicos-alvo deixam de ser as racionais e intelectuais e passam a ser as emocionais e afectivas.
Uma das tácticas (e técnica) da propaganda com uso generalizado é o “assassinato de carácter”. Trata-se de uma pulsão animal que transportamos como destino evolutivo, tendo gasto em qualquer dimensão da nossa vida onde haja conflitos, inclusive com família, amigos, colegas e, claro, (ex)parceiros amorosos. Ver um adversário político a ser envolvido num processo judicial, por exemplo, é uma das mais eficazes formas de assassinato de carácter independentemente do desfecho do processo, pois o facto em si e a duração da fragilidade reputacional causam danos irreparáveis e indeléveis. Mas mesmo quando não se pode ter essa vantagem tal não interrompe o uso desta técnica. Nesta semana, vimos Rui Rio a queixar-se disso mesmo, por causa de mensagens públicas onde se agitava o seu autoritarismo. A ironia do episódio é que este mesmo Rui Rio passa a vida a fazer assassinatos de carácter e nem sequer concebe a política de outra forma.
Trago este paleio para registar como é que António Costa foi e é alvo da técnica. Não sendo possível envolvê-lo em qualquer berbicacho judicial, não existindo qualquer influência do PS num órgão de comunicação social, e estando o actual secretário-geral socialista associado a resultados extraordinariamente positivos na governação, inclusive em pandemia, primeiro começou por se dizer que era “habilidoso”, eufemismo de “manhoso, ardiloso, falso” lançado pela direita. Isto durou 4 anos. Depois o BE chumbou o Orçamento de Estado para 2021, e dessa área começou a dizer-se que ele “queria a maioria absoluta”. A seguir, a direita veio com o “cansado”, por ser evidente que uma pandemia, às tantas, tem o seu preço em quem governa. Depois o BE e o PCP chumbaram o Orçamento para 2022, e juntos desataram num berreiro contra Costa e a sua malvada ambição da maioria absoluta. A campanha eleitoral do BE e do PCP foi um contínuo assassinato de carácter e um apelo ao medo.
Nisto tudo está a táctica de fazer uma caricatura do adversário para desviar a atenção dos eleitores do que mais importa e levá-los a ficar obcecados com o que nem sequer existe. E resulta, há milhares de anos que resulta.
POR VALUPI
Do blogue Aspirina B
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