Baudelaire está a ser celebrado a propósito dos 200 anos do seu nascimento e como o poeta maldito que modernizou a poesia, com o célebre “As Flores do Mal”. É apresentado como um exemplo do conflito entre o comportamento do individuo, mesmo que marginal (como era o seu caso) e a multidão, que teve lugar no período revolucionário em França e de que vivemos hoje aqui em Portugal uma réplica à nossa escala. Baudelaire utilizou extressões goût de la vengeance" (gosto da vingança) e do "plaisir naturel de la demolition" (prazer natural da destruição), para classificar as atitudes das multidões. Podemos utilizá-las hoje a propósito da multidão mediática. Há, segundo as notícias, mais de 150 mil peticionários disponíveis para um lugar de participantes num auto de fé, ou a uma execução com a guilhotina numa praça pública.
O historiador inglês Georges Rudé, em A multidão na história, cita as formas de tratamento da multidão de Gustave Le Bon, o criador da moderna psicologia de massas, como: "irracional, instável e destrutiva, intelectualmente inferior aos seus componentes, primitiva, ou com tendência a reverter a uma condição animal". Le Bon admite também que as pessoas de instintos destrutivos tendem a sentir-se atraídos pela multidão.
Esta antiga qualificação das multidões pode aplicar-se aos movimentos populistas, justicialistas, que medram hoje em oposição a comportamentos geralmente classificados pela trilogia: humano/normal/racional. Já recebi propostas para integrar esta nova multidão vindas pessoas que julgava normais!
Voltando a Baudelaire, em Les Veuves, o poeta que foi acusado de ausência de mens sana, de loucura, descreveu o que hoje vivemos, afirmando que multidões refletem “a alegria do rico no fundo dos olhos do pobre". Isto é, há sempre um rico, um pastor, a promover a irracionalidade das multidões e estas não partem à desfilada espontaneamente. As flores do mal crescem e confundem-se com as de um jardim.
Carlos Matos Gomes



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