Rádio Freamunde

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quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Em defesa do racismo:

 «Ao trazer para a altercação a ideia de associar à cor da pele do seu antagonista uma hipotética deformação de carácter, como se fosse uma característica inata a todos os que têm o mesmo tom de pele, o homicida de Bruno Candé Marques, factualmente, acrescentou ao ódio pelo individuo, com quem discutia não sei o quê sobre uma cadela, um preconceito racial contra os negros em geral - e isso é, como é óbvio, racismo.

O assassino talvez não tenha disparado quatro balas no corpo de Bruno Candé Marques por ele ser negro, mas usou a negritude do ator para o ferir psicologicamente durante a subida da tensão nervosa que o levou a cometer homicídio e, por isso, o quadro completo do crime não pode ser desenhado sem lhe acrescentar essa tinta estigmatizadora do racismo, que envenena a paz das nossas sociedades.

[...]

Seguindo esta lógica, se eu estiver de cabeça perdida e lançar um insulto a um negro por ele ser negro, não deixo de ser um racista.»


Pedro Tadeu – Porque há racismo no homicídio de Bruno Candé?

«Quem procura esconder o racismo que existe no nosso país dirá que tudo começou naquele momento, que uma coisa leva à outra e depois tudo se descontrolou. Ficará convencido disso quem disso se quiser convencer, pois a realidade mostra tudo de forma bem diferente.

O crime foi premeditado, o assassino regressou dias depois do desentendimento com o único objetivo: matar Bruno Candé. Para isso usou uma arma ilegal, cujo percurso ainda está por explicar. Os insultos racistas dão conta de um ódio que já era antigo, que vinha de trás, e do qual Bruno Candé não podia fugir: a cor da sua pele. Isso incomodava o assassino muito antes da cadela se ter atravessado ao caminho e é o que torna tudo diferente.»


Pedro Filipe Soares – Sim, é racismo

Servem estes dois exemplos para ilustrarmos o caso. O caso em que a problemática do racismo é tratada na comunicação social de uma forma que fornece armas e munição aos manipuladores de ignorantes, alienados e veros racistas. Tentar explicar isto ao Pedro Tadeu e ao Pedro Filipe Soares é que será missão impossível, pois eles não estão em condições de aprender. Pelo que continuarão a ser cúmplices involuntários de um fenómeno de irracionalização muito grave mas passível – e com urgência – de ser analisado racionalmente.

Na primeira citação, Tadeu constrói o argumento para a existência de racismo a partir do registo discursivo do assassino no momento que antecede o disparo. Ele próprio se encarrega de dar ênfase à tese: insultar alguém com referências a aspectos corporais é “racismo”. E ponto final na conversa. As palavra ditas chegam e sobram para a conclusão, não carecendo o seu texto de conhecer seja o que for a respeito de quem as proferiu para se encerrar o inquérito. Na segunda citação, Soares assume o estatuto de narrador omnisciente e revela o que se passou na subjectividade do criminoso a partir de um passado indeterminado; altura em que terá começado a premeditar a morte de Bruno Candé, garante. Não só o autor nos dá um calendário integral do processo psicológico de alguém com quem nunca sequer falou como nos serve uma versão policial sem direito à menor dúvida: a cor da pele foi o móbil do crime. Quem vier tentar pôr em causa o seu diagnóstico ficará vergonhosamente carimbado como traste que anda a “esconder o racismo”.

Ora, estes dois senhores com banca na imprensa não faziam parte das relações pessoais entre os envolvidos, não assistiram ao episódio, não pertencem às polícias e às magistraturas que estão a recolher a informação e a estabelecer a mais rigorosa versão possível. O acto de escreverem sobre o assunto, portanto, não pode estar a nascer de processos relativos ao conhecimento factual, científico, policial e judicial. Donde virá a sua opinião, se não vem inteligência empírica por via pessoal nem das autoridades envolvidas? Vem das impressões, do senso comum, da ideologia e, especialmente, da desumanização. Parece paradoxal, posto que a retórica utilizada é justamente para lamentar e denunciar um supremo acto de desumanização que acabou com uma vida humana, mas acontece que para o fazerem estas duas figuras, representando milhares ou milhões de outras, acham-se no direito de desumanizar o assassino. Ao tratá-lo sem demora nem critério como “racista”, ao reduzirem o seu comportamento ao longo de décadas à atitude da agressão fatal num certo dia, a inerente complexidade psicológica, cívica e antropológica dessa pessoa desaparece e é substituída por uma abstracção, pela caricatura que serve os oportunistas cheios de boas intenções e satisfeitos com o espantalho disponível para despachar jornalismo de opinião.

Do outro lado estava Ventura, o oportunista só com más intenções que agradeceu a benesse e montou aquela que fica como a mais pujante manifestação política de apoio ao Chega depois dos resultados eleitorais de 2019 que o meteram no Parlamento. Vir para a rua gritar que não há racismo em Portugal comunica directa e identitariamente com a enorme maioria silenciosa cujos processos cognitivos afirmam exactamente o mesmo. E esta consciência radica nas evidências: não há racismo em nenhuma esfera da estrutura do Estado e da sua produção legislativa. Precisamente ao contrário, como comunidade escolhemos punir o racismo através do Código Penal e das instituições públicas, para além de estarmos constantemente na sociedade em campanha contra o racismo e em vigilância para detectar e castigar manifestações de tal por mais ténues que pareçam. Há uma aversão sociológica ao racismo que torna residual, e fonte de dano na reputação, a mera expressão de humor a respeito de diferenças etnográficas e antropológicas. Pelo que foi oferecido a um palhaço do calibre tóxico do Ventura um bastião invencível: Portugal não é racista, obviamente – e quão mais se atacar esta posição mais forte ela ficará.

Todavia, o racismo existe, né? É possível identificar várias, muitas, inúmeras situações que, por isto ou aquilo, entram nessa categoria, certo? Claro que sim, só que aqui também os nossos paladinos anti-racistas estão a borrar a pintura. Os conceitos de “racismo estrutural” e/ou “racismo institucional” fazem todo o sentido como instrumentos intelectuais e políticos em certos contextos onde as audiências tenham literacia e motivação suficicentes para eles serem operativos e consequentes. Não sendo o caso, perdem por completo a eficácia original e transformam-se em brechas na muralha contra o próprio fenómeno discriminatório que intentam combater. Insistir neles para comunicar com os públicos-alvo do Ventura e quejandos já nada terá a ver com a procura de soluções seja para o que for, fica apenas como uma radicalização que suscita radicalização simétrica. Porque ninguém, a começar por quem envia para o espaço público esse alarme e essa indignação, sabe como é que o racismo estrutural vai acabar sem com isso acabar a própria estrutura onde ele acontece. E ninguém sabe porque sabemos todos bem demais que o “racismo” é apenas um dos nomes que se dá à universal pulsão para o tribalismo. O tribalismo ocorre a propósito das diferenças corporais, vai sem discussão, mas igualmente ocorre a propósito de milhentas outras características humanas como a nacionalidade, a religião, a força política, o género, a idade, o estatuto social, a corporação, o clube, a geografia, as melífluas afinidades electivas – todo e qualquer elemento simbólico, todo e qualquer nexo afectivo, que se torne vector do instinto de sobrevivência.

Não é fácil encontrar um racista. Porque não é racista quem quer. Ou quem finge ser, como o Ventura. O nível de aberração intelectual a que se tem de chegar para criar uma identidade racista numa democracia da União Europeia ou implica atrofio cognitivo ou psicopatia grave. E nesta constatação há uma noção incontornável para os cultores da liberdade: o racismo não pode nunca limitar-se à esfera do discurso calhando este apontar para diferenças, sejam elas quais forem, entre grupos de humanos; o racismo tem sempre, sempre e sempre de ser visto como uma prática de perseguição a certos grupos ou indivíduos ofendendo os seus direitos humanos e o Estado de direito democrático. Isto significa que as expressões “preto de merda”, ou “cigano do caralho”, ou “branco filho da puta”, não provam por si só o racismo seja de for que as utilize. O mais provável, bem acima dos 99%, é apenas servirem para provar a imaturidade, estupidez ou miséria moral de quem assim se mostrou na sua fragilidade, na sua humanidade.

Do blogue Aspirina B

 POR VALUPI

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