Num mundo virado do avesso, que ganha a cada dia os ingredientes certos para um caldo frio semelhante ao do início do último século, resta-me continuar a recontar histórias, que provam que, por detrás de qualquer nuvem negra, existe sempre um sol a brilhar!
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
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quinta-feira, 13 de agosto de 2020
Altruístas:
Desta vez, viajo até à Austrália, onde um simples homem, nascido a 27 de Dezembro de 1936, com um gesto de altruísmo puro, repetido 1173 vezes ao longo de 63 anos, salvou mais de 2 milhões de crianças!
A história heróica de James Harrison iniciou quando, com apenas 14 anos, foi operado e necessitou duma transfusão de sangue, que lhe salvou a vida.
Após esse dia, James prometeu que, quando tivesse mais de 18 anos, passaria a ser um doador de sangue. Atingindo a maioridade, James cumpriu a promessa e passou a doar regularmente sangue.
Mas o que James não sabia era que o sangue era extremamente raro e valioso. A doença de Rhesus, ou eritroblastose fetal, é uma doença que surge quando uma mãe, com um sangue do tipo RH-, gera uma criança com sangue RH+, após ter tido uma outra criança com sangue RH+ ou caso tenha recebido sangue RH+ anteriormente. O corpo duma mãe RH- após o primeiro contacto com o sangue RH+ gera um anticorpo chamado imunoglobina RH (Anti-D) que, na segunda gravidez, será letal para o bebé.
Contudo, nos anos 50 do século passado, os cientistas descobriram que o anticorpo Anti-D era também a cura para esta doença.
E acontece que James Harrison tinha uma quantidade deste anticorpo muito elevada e rara, condição única para que o seu plasma sanguíneo fosse utilizado como a cura de milhões de bebés!
James doou o sangue até ao último dia possível, ou seja até aos 81 anos, porque a lei australiana proíbe a doação de sangue a partir dessa idade.
Num país em que a taxa de mulheres com probabilidade de enfrentar esta doença nos seus fetos é de 17%, o altruísmo deste homem, que, para além das doações de sangue sucessivas, se obrigou a manter um estilo de vida que permitisse que ele estivesse sempre na condição de doação de sangue, faz-nos sorrir e pensar que, neste mundo em que vivemos, ainda existe muita gente que justifica a nossa classificação de seres humanos.
Termino hoje referindo-me a um doador de sangue especial chamado José Neto. O sangue, que ele doou, certamente, ajudou muitos, mas não salvou milhões, nem tinha um anticorpo especial no sangue, mas soube manter sempre o seu sorriso aconchegador, alegrando e animando todos aqueles que com ele conviviam. Também sempre se preocupou com a sua saúde, e para isso o atletismo foi sempre uma vontade e um gosto que nos soube transmitir.
Lembro-me de, nos anos 90, ver este homem chegando a casa, mesmo cansado do trabalho duro que tinha, a primeira coisa que fazia era equipar-se e levar-me a mim a aos meus dois irmãos para correr nos trilhos dos montes de Freamunde de Cima e Sousela (curiosamente hoje percorridos no Trail Foge Foge Capão).
Sem sabermos estávamos a praticar o desporto que hoje tantos entusiasma, e por isso, em tom de brincadeira, digo que ele foi o inventor do trail-running. A ti, que sempre me correrás no sangue, o meu eterno agradecimento por teres ocupado a casa de livros, de teimares em colocar Zeca Afonso a tocar a toda a hora, de nos pores a correr naqueles finais de dia, e por seres e nos ensinares a ser altruístas!
Dedicado ao meu Pai!
RICARDO JORGE NETO - JORNAL "GAZETA DE PAÇOS DE FERREIRA" - EDIÇÃO DE 6 DE AGOSTO
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