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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

CICLISMO:

 
VOLTA A PORTUGAL - FOI HÁ 60 ANOS QUE...

Abílio de OLIVEIRA MARTINS "Rangel"

No dia 28 de Agosto de 1960, terminava no Porto, pista das Antas, a edição XXIII da Volta a Portugal em bicicleta. E depois? Qual o interesse? Vão perceber lá mais para a frente.
Freamunde nunca teve grandes tradições no ciclismo. Pelas festas ao "Mártir São Sebastião", nas primeiras décadas do século XX, já em plena República, do programa oficial ainda chegaram a constar alguns circuitos para amadores organizados pelos comissionados.
Ecos das Festas de 1911: «...No segundo dia, durante a tarde, disputou-se também uma interessante corrida de bicicletas. Classificação: 1º - Ladislau António Ribeiro; 2º - Moisés Santos Simões. Os troféus estiveram expostos no estabelecimento de modas "A. Leão & Oliveira"».
Três homens, três Oliveiras (Cândido de Oliveira, Mário de Oliveira e Raúl de Oliveira) e dois jornais ("Diário de Notícias e "Os Sports") estão na origem da 1ª  Volta a Portugal em Bicicleta, que teve início em 27 de Abril de 1927, em Lisboa. 
Volta que levou  a "chocolateira" onde ela nunca tinha sido vista.
À partida alinharam 37 corredores, entre "fortes", "fracos" e militares, para uma aventura de 18 etapas de pesadelo. Chuvas torrenciais; estradas pantanosas, de regos e lama;  quedas constantes; furos; desistências... 
Enfim, um autêntico martírio. 
Um exemplo que ilustra o Portugal de então: «no Alentejo, a província sacrificada por excelência, foi preciso assinalar os percursos com bandeirolas, ou os ciclistas perder-se-iam nas charnecas. O pequeno pelotão chegara a andar por entre pinheiros, vinhas e locais onde a água quase chegava ao pescoço dos corredores» In "A Bola" - Suplemento nº 7441 de 1 de Agosto de 1993.
António Augusto de Carvalho (Carcavelos) terminaria vencedor da edição.

António Augusto Carvalho levado aos ombros pelos seus admiradores
Depois de quatro anos de ausência, ressurgiu a Volta. O "gigante" José Maria Nicolau (Benfica) e o "anão" Alfredo Trindade (União do Rio de Janeiro, Lisboa, e depois Sporting) iriam provocar o entusiasmo dos aficionados. Eram compadres, naturais do mesmo concelho (Cartaxo) - apenas cinco meses de diferença na idade -  e tornaram-se ídolos por muitos anos.
O Benfica e o Sporting devem-lhes milhares de adeptos. 
Multidões em delírio acorriam à passagem dos heróis do pedal.
O ciclismo passou a ser o desporto do povo, uma festa colorida, um espectáculo diferente que visitava, e continua a visitar lugares onde por vezes parece que nada acontece. 
José Maria NICOLAU e Alfredo TRINDADE

Com o eclodir da "2ª Grande Guerra Mundial", nos jornais, a Volta era pequena notícia. Os títulos de manchete eram outros. Terríveis. O conflito dominava tudo.
A Guerra, com todo o seu cortejo de desgraças, fez a Volta "parar" por quatro anos.

Talvez por isso, aproveitando a "folga, os dirigentes do Clube de futebol do "Carvalhal" tomaram a peito a organização do "I Circuito de Freamunde" que se disputou no dia 4 de Outubro de 1942.
A prova constava de 4 voltas - aproximadamente 80 Kms -, com partida do centro da Vila, às 16,30 horas, e passagem por Ribas, Raimonda, Figueiró, Carvalhosa, Meixomil, Paços de Ferreira e termo em Freamunde, junto à Praça do Mercado, onde estava instalada a meta final.
Entre dezenas de independentes inscreveram-se ciclistas de grande nomeada, provenientes do F.C. Porto, Sangalhos, Académico e Salgueiros.
Vários prémios foram instituídos: 700$00 (valor a distribuir pelos cinco primeiros classificados), 6 taças, um envelope mistério, 100$00 da Câmara Municipal, 6 queijos de 1 quilo, 1 manípulo, 2 espelhos de porta bagagens e 2 campainhas. Também a Quinta do Paço ofertou 1 queijo de 250 gramas a todos os corredores concorrentes.
Estes valores e troféus, patrocinados por Fábrica "Albar", Fábrica António Pereira da Costa, Freamunde Sport Club e Sociedade Columbófila de Freamunde, foram entregues, à noite, em sessão solene realizada no salão da Associação de Socorros Mútuos Freamundense. Também a Imprensa foi alvo de uma singela homenagem.
O grande vencedor deste Circuito foi o valoroso ciclista do F.C. Porto, Império dos Santos, logo seguidos pelos colegas Manuel Cardoso e José Pardal, Armando Esteves do Sangalhos, Fernando Moreira do F.C. Porto e Belmiro Correia do Académico.
Na categoria de Iniciados - Prova Extra - foi galardoado Mário Teles, de Freamunde.

Império dos Santos (também representou o Benfica e o Salgueiros), pai do actual director-desportivo para o ciclismo do Boavista, José Santos

Terminada a  Guerra e com o eclipse há muito anunciado  de Nicolau e Trindade, dois outros protagonistas iriam marcar, por uns tempos, a pedalada da corrida: os jovens Alves Barbosa (Sangalhos) e Ribeiro da Silva (Académico), que quebrariam a hegemonia da equipa do F.C. Porto, por vezes esmagadora. Em 1949, por exemplo, colocaram cinco homens nos cinco primeiros lugares da classificação geral.

Alves Barbosa e Ribeiro da Silva

Em 1955, após dois anos de interregno, a Volta retoma a sua história. O "estudante" Alves Barbosa, natural de Montemor-o-Velho e filho de antigo corredor com casa de bicicletas, é, por todos, apontado como o principal favorito à conquista final, tal a classe demonstrada na  grande prova: nos anais, a vitória sem contestação em época (1951) de estreia, com apenas 19 anos de idade, onde cometeu a proeza inédita de vestir a camisola amarela na pista (Lima) do Académico, palco da primeira etapa, e ir com ela até ao fim da Volta.

Alves Barbosa

É então que aparece em "cena" o nome de... FREAMUNDE. Nesse ano alinha à partida um estreante. Não, não era natural de cá (nasceu em Lordelo) mas tinha escolhido Freamunde como terra adoptiva. Granjeou inúmeras amizades, sobretudo com Nelson Lopes, e tornou-se um dos "nossos" heróis. Chamava-se RIBEIRO DA SILVA. Os amigos conheciam-no por o "Quarta-feira".

Ribeiro da Silva e Nelson Lopes


Ribeiro da Silva tornou-se sócio do Sport Clube Freamunde

Sem complexos, não está com meias medidas: vence as duas primeiras etapas de estrada e veste a "amarela". Os "rivais, mas amigos, travam uma luta de gigantes. Ribeiro da Silva é declarado vencedor da Volta mas a mesma termina mal. Na última etapa, na Senhora do Monte, perto dos Carvalhos, quando beneficiava da vantagem de seis minutos, Alves Barbosa é agredido e derrubado por espectadores. Tal acto retirou algum brilho à vitória alcançada pelo seu maior opositor.

Ribeiro da Silva com os louros da vitória
Nos anos seguintes, alternam-se as conquistas: em 1956 vence Alves Barbosa e em 1957 os louros vão inteirinhos para Ribeiro da Silva (é de louvar o 3º lugar na geral, que lhe deu o pódio, de Agostinho Ferreira "Académico do Porto", natural da vizinha freguesia de Frazão. No ano anterior havia terminado num honroso 7º posto).
Em 1957, Ribeiro da Silva alcança um um dos maiores feitos internacionais da sua carreira ao obter um brilhante 4º lugar na "Vuelta" de Espanha (Freamunde prestou-lhe calorosa recepção). Nesta mesma temporada os "rivais" participaram no "Tour", ganho por Anquetil. Ribeiro da Silva classificou-se em 25º lugar (como amador já tinha vencido com incontestável brilho a clássica gaulesa "Paris-Evreux, em 1952) e Alves Barbosa desistiu (havia feito um honroso 10º posto no "Tour" 1955).
Mas em Agosto de 1958, Ribeiro da Silva é já um saudoso ausente da edição XXII da clássica portuguesa: falecera, meses antes, no dia 9 de Abril, num estúpido acidente de moto ("estampou-se" contra uma camioneta no lugar de Lagoas-Lousada, com apenas 23 anos de idade e uma carreira promissora à sua frente). 

Recepção a Ribeiro da Silva (de óculos escuros) após o "feito" de 1957, em Espanha
Os freamundenses choraram tamanha desdita e esperaram que novo ídolo aparecesse.
Entretanto dava nas vistas, continuava a fazer umas "flores",  Carlos Pinheiro -  por aqui "parava" há já uns anitos -  que, por exemplo, em 1952, ao serviço do F.C. Porto, «vencera a prova Porto-Trofa, em populares, à frente, imagine-se!, com 1 minuto de avanço, de... Ribeiro da Silva, "menino" de apenas 17 anos de idade, que pela primeira vez participava em provas oficiais. "Vingou-se" em Valongo, pouco depois, deixando o "rival" e vizinho Carlos Pinheiro a "escassos" 8 minutos de diferença. Carlos Pinheiro, desesperado, no final até se deitou no chão». "Fonte: Ídolos do Desporto, nº 73, 13.07.1957".

Carlos Pinheiro
Na Rua do Comércio, Carlos Pinheiro "brinca" com alguns dos filhos de Albino "Aniceto"

Carlos Pinheiro glorificou-se, em 1955, na categoria de amadores, ao vencer a prova de abertura organizada pela Associação de Ciclismo do Porto e "viu-se" na clássica Porto-Lisboa, ao conseguir entrar na fuga final. 
Presença assídua, igualmente, nos Circuitos de Paços de Ferreira, vila que ao longo de 11 anos, desde 1947 a 1958, acolhera as maiores figuras do ciclismo nacional.
A prova, organizada pelo Grupo de Iniciativa "Pr'ó Paços", teve como vencedores, Fernando Moreira (F.C. Porto), por 2 vezes; Jaime Montañha (C.C. Barcelona); Onofre Tavares (F.C. Porto); Moreira de Sá (F.C. Porto), por 2 vezes; Ribeiro da Silva (Académico do Porto) e Alves Barbosa (Sangalhos), nos últimos 4 circuitos. 

Ribeiro da Silva: Foto tirada em Paços de Ferreira, junto à Confeitaria Amândio
No derradeiro (1958), e antes do início da prova, o Vice-Presidente da Câmara Municipal, procedeu à entrega de medalhas de oiro aos corredores Alves Barbosa, Agostinho Ferreira e Carlos Pinheiro pelos seus brilhantes comportamentos na  Volta a Portugal desse ano: 1º, 12º e 28º, respectivamente.

Deixamos para o fim o único ciclista nado e criado neste torrão: OLIVEIRA MARTINS, nome de "guerra", mais conhecido entre os freamundenses por ABÍLIO "RANGEL".

Oliveira Martins, "à Porto"
E prometia. Ainda júnior-amador, já ao serviço do Académico  após fugaz passagem pelo F.C. Porto, Oliveira Martins, no dia 14 de Fevereiro de 1960, classificou-se em 1º lugar, na categoria referida, na prova realizada entre Porto-Famalicão-Porto.
Os feitos não passaram despercebidos aos "entendidos" e não tardou que Oliveira Martins fosse escolhido pelos responsáveis da ACN (Associação de Ciclismo do Norte) entre os cinco melhores amadores para disputar em Lisboa as últimas provas de apuramento para os Jogos Olímpicos de Roma (Estrada individual masculino e estrada colectivo masculino). 
A concorrência era fortíssima e Portugal acabou representado por ciclistas de enorme craveira e que não tardaram a dar cartas no panorama velocipédico nacional, com conquistas, inclusive, da Volta à mistura: Mário Silva "vencedor em 1961" e José Pacheco "vencedor em 1962" (os dois do F.C.Porto), Francisco Valada (Benfica) e Ramiro Martins (Pontével). Curiosamente, Ramiro Martins (campeão nacional de Juniores)  era tio de Marco Chagas.
Não estranhou, pois, que Oliveira Martins, mesmo muito jovem (20 anos comemorados no dia 13 de Junho), se estreasse com a camisola alvi-negra do Académico do Porto na edição XXIII da Volta a Portugal, corria o referido ano de 1960. O italiano Renato Longo foi o primeiro camisola amarela da prova, iniciada em 14 de Agosto e finalizada a 28 do mesmo mês com a inscrição recorde de 116 ciclistas e a presença de três equipas estrangeiras (Ignis - Italiana; Peugeot - francesa e Licor 43 - espanhola). Novidade: a inauguração da pista das Antas, local de começo e fecho da Volta.
Oliveira Martins "à Académico do Porto"

Sousa Cardoso do F.C.Porto foi o "rei", não obstante o esforço desesperado de Antonino Baptista (Sangalhos) e Gomez Del Moral (Licor 43), 2º e 3º, respectivamente, na geral. Oliveira Martins quedou-se pelo 47º lugar entre os 55 ciclistas resistentes (mais de metade experimentou o "carro vassoura"), percorrendo os 2.533 kms em 76 horas, 56 minutos e 24 segundos. "Vedetas" como Sérgio Páscoa (Ginásio de Tavira - 26º); José Calquinhas (Sporting - 30º); Agostinho Ferreira (Académico do Porto - 31º); Laurentino Mendes (Ovarense - 44º) ou Américo Raposo (Sporting - 45º), pouco melhor fizeram.

Sousa Cardoso (F.C. Porto) - Vencedor da Volta de 1960
Numa das etapas, Freamunde foi local de passagem da caravana. Na Rua do Comércio, junto aos Bombeiros, perto da residência dos pais, José Pacheco Martins "Rangel" e Julinda Oliveira, que viviam no Túnel do Carvalhal, na frente do pelotão destacava-se... Oliveira Martins, para gáudio dos seus imensos conterrâneos que preenchiam as bermas da estrada. Não faltaram os aplausos e os gritos de incitamento. Foi bonito e enternecedor. 
No final, as crónicas do correspondente da "Gazeta" foram elucidativas: «Lutou muito. Talvez mais do que podiam as suas forças. Para nós, freamundenses, que lhe seguimos passo a passo a "vida" na Volta, o seu desempenho foi de herói. Outros com mais possibilidades e condições "tombaram" por essas estradas poeirentas e perigosas de Portugal (a passagem pelo Alentejo foi dramática devido ao calor infernal que se sentiu). A boa gente da nossa terra não o esqueceu e manifestou-se ruidosamente à sua chegada. Não faltaram os foguetes, música, flores e abraços». 
Era assim em Freamunde.  Os nossos "ídolos" tratavam-se com miminhos. 

Povo anónimo presta significativa homenagem ao seu "herói" Oliveira Martins

 Em cima: Oliveira Martins (1º  da esq. para a dir.), Luís "Mirra", Fernando Leal, Humberto Pereira, João Taipa e Carlos Alberto Teles Menezes 
Em baixo: António Lopes e Luís Alberto Teles Menezes

Semanas após, no intervalo do jogo de futebol entre o Freamunde e o Académico do Porto (por casualidade, o clube que representava), teve direito a "passear-se" na sua bicicleta, equipado a rigor, ante multidão delirante. Afinal, sempre era da Terra e tinha acabado a Volta.
Prosseguiu o seu percurso mas, volvidos poucos anos, procurou vida melhor e emigrou para África. Para Angola , onde continuou a dar umas pedaladas, ganhando notoriedade no conceituado "Grande Prémio Nocal" que anualmente se realizava na cidade de Luanda.
Após o 25 de Abril de 1974, regressou, na condição de casado, à sua terra natal, Freamunde, onde continuou a praticar desporto, agora como columbófilo.
Era, e é (vive actualmente em Mira) um homem afável, respeitador, com quem eu tive o grato prazer de conviver. Um homem bom.

Do blogue: factos e figuras

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