A política é um dever de
cidadania expressa por todo o cidadão quando exerce os seus direitos em
assuntos públicos seja através do voto, seja em opinião ou tomada de posição.
Por isso, todos nós fazemos
política mesmo quando achamos que não a fazemos.
Porém, no exercício da política,
uns são marionetas e outros são mestres do métier. Cada vez mais proliferam os
políticos profissionais e as técnicas de marketing que levam a conduzir os
outros. Não através do esclarecimento que se impunha, mas através da confusão,
da ignorância e da descrença. O cidadão comum vive espartilhado em forças que
não sabe discernir. Iludido de que está informado, aponta o dedo, barafusta,
sem perceber que está a ser conduzido e encurralado. São sempre os poderes e os
interesses que lucram com isso.
Nenhum partido é isento na
informação que disponibiliza. Todos procuram corresponder às expectativas do
seu eleitorado e ganhar eleitorado aos outros. Vive-se o tempo das sondagens
obsessivas. Estamos a perder ou ganhar terreno? Estamos a vencer ou não a
guerra das audiências? E o cidadão comum, com tanta profusão de informação,
fica cada vez menos esclarecido. E quanto menos esclarecido mais dominado. E
quanto mais dominado mais servil perante os grandes poderes assentes nas
desigualdades.
Alguns exemplos me ocorrem.
Todos nós somos sobrecarregados
com impostos. É através dos impostos que o Estado se alimenta. É do IVA, do IRS
e das contribuições para a Segurança Social, entre outros, que vem para os
cofres do Estado o dinheiro para fazer face a todo um conjunto de despesas.
Porém, os impostos são sempre dolorosos para os cidadãos que, contra eles,
constantemente se rebelam. E, assim, quando um partido nos diz que vai diminuir
os impostos e cortar na despesa, as pessoas batem palmas de contentamento. O
que não diz o político é aquilo que entende como despesa do Estado. O cidadão,
pouco esclarecido, pensa logo que cortar na despesa é cortar no carro do
ministro, ou numas viagens e não se apercebe que os valores desses “luxos” são
exíguos e que a redução de impostos à custa da contracção da despesa significa
cortar na Escola Pública, no Serviço Nacional de Saúde e na Segurança Social.
Ninguém se interroga que modelo de governação quer para o seu País. Se quer um
modelo à americana, com descontos mínimos e sem protecção social, ou se quer um
Estado-Providência e, para isso, tem que haver impostos. Se estes são feitos,
ou não, de forma justa, já é outra questão.
Outro exemplo ilustrativo tem a
ver com as “reformas douradas”. Num País em que a pensão mínima não chega a 300
euros, falar em reformas acima dos 5 000 euros é, no mínimo, afrontoso. E,
assim, quando um político fala em colocar um tecto no valor das reformas o Zé
Povinho delira e bate palmas. O que não é dito é que a injustiça não está no
valor da reforma se, de facto, o indivíduo fez os seus devidos descontos.
Descontos que, juntando a Segurança Social ao IRS, atingem mais de 40% do
vencimento bruto nos vencimentos mais elevados. A injustiça está no leque
salarial díspar que deu origem a que no fim da vida uns recebam tanto e outros
tão pouco. Mas o que de facto se pretende com este tecto não é proteger os mais
fracos, mas sim permitir que os que usufruem vencimentos obscenos deixem de
descontar os tais mais de 40% para o Estado. Assim, um gestor que ganhe 100 000
euros, ao invés de descontar mais de 40 000 euros, descontaria apenas na base
da reforma que iria receber. Ou seja, se o tecto se fixasse nos 5 000 euros,
quem auferisse, por exemplo, 100 000 euros ficaria com 95 000 euros livres de
impostos. E, assim, não receberia a reforma dourada porque já a tinha garantida
em fundos de capitalização ou em seguros privados. Entretanto desfalcaria o
Estado Providência pela ausência da sua mais que expressiva contribuição. E não
é por acaso que os partidos mais à esquerda nunca defenderam esta medida.
E podemos continuar com o embuste
exemplificando os partidos que defendem as movimentações de massas para exigir
melhores condições de vida, quando nos países, com os modelos políticos que
defendem, são proibidas todas e quaisquer manifestações.
Lídia Soares
Em Sociedade Justa
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