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sábado, 4 de julho de 2020

A POLÍTICA E O EMBUSTE:

A política é um dever de cidadania expressa por todo o cidadão quando exerce os seus direitos em assuntos públicos seja através do voto, seja em opinião ou tomada de posição.
Por isso, todos nós fazemos política mesmo quando achamos que não a fazemos.
Porém, no exercício da política, uns são marionetas e outros são mestres do métier. Cada vez mais proliferam os políticos profissionais e as técnicas de marketing que levam a conduzir os outros. Não através do esclarecimento que se impunha, mas através da confusão, da ignorância e da descrença. O cidadão comum vive espartilhado em forças que não sabe discernir. Iludido de que está informado, aponta o dedo, barafusta, sem perceber que está a ser conduzido e encurralado. São sempre os poderes e os interesses que lucram com isso.
Nenhum partido é isento na informação que disponibiliza. Todos procuram corresponder às expectativas do seu eleitorado e ganhar eleitorado aos outros. Vive-se o tempo das sondagens obsessivas. Estamos a perder ou ganhar terreno? Estamos a vencer ou não a guerra das audiências? E o cidadão comum, com tanta profusão de informação, fica cada vez menos esclarecido. E quanto menos esclarecido mais dominado. E quanto mais dominado mais servil perante os grandes poderes assentes nas desigualdades.
Alguns exemplos me ocorrem.
Todos nós somos sobrecarregados com impostos. É através dos impostos que o Estado se alimenta. É do IVA, do IRS e das contribuições para a Segurança Social, entre outros, que vem para os cofres do Estado o dinheiro para fazer face a todo um conjunto de despesas. Porém, os impostos são sempre dolorosos para os cidadãos que, contra eles, constantemente se rebelam. E, assim, quando um partido nos diz que vai diminuir os impostos e cortar na despesa, as pessoas batem palmas de contentamento. O que não diz o político é aquilo que entende como despesa do Estado. O cidadão, pouco esclarecido, pensa logo que cortar na despesa é cortar no carro do ministro, ou numas viagens e não se apercebe que os valores desses “luxos” são exíguos e que a redução de impostos à custa da contracção da despesa significa cortar na Escola Pública, no Serviço Nacional de Saúde e na Segurança Social. Ninguém se interroga que modelo de governação quer para o seu País. Se quer um modelo à americana, com descontos mínimos e sem protecção social, ou se quer um Estado-Providência e, para isso, tem que haver impostos. Se estes são feitos, ou não, de forma justa, já é outra questão.
Outro exemplo ilustrativo tem a ver com as “reformas douradas”. Num País em que a pensão mínima não chega a 300 euros, falar em reformas acima dos 5 000 euros é, no mínimo, afrontoso. E, assim, quando um político fala em colocar um tecto no valor das reformas o Zé Povinho delira e bate palmas. O que não é dito é que a injustiça não está no valor da reforma se, de facto, o indivíduo fez os seus devidos descontos. Descontos que, juntando a Segurança Social ao IRS, atingem mais de 40% do vencimento bruto nos vencimentos mais elevados. A injustiça está no leque salarial díspar que deu origem a que no fim da vida uns recebam tanto e outros tão pouco. Mas o que de facto se pretende com este tecto não é proteger os mais fracos, mas sim permitir que os que usufruem vencimentos obscenos deixem de descontar os tais mais de 40% para o Estado. Assim, um gestor que ganhe 100 000 euros, ao invés de descontar mais de 40 000 euros, descontaria apenas na base da reforma que iria receber. Ou seja, se o tecto se fixasse nos 5 000 euros, quem auferisse, por exemplo, 100 000 euros ficaria com 95 000 euros livres de impostos. E, assim, não receberia a reforma dourada porque já a tinha garantida em fundos de capitalização ou em seguros privados. Entretanto desfalcaria o Estado Providência pela ausência da sua mais que expressiva contribuição. E não é por acaso que os partidos mais à esquerda nunca defenderam esta medida.
E podemos continuar com o embuste exemplificando os partidos que defendem as movimentações de massas para exigir melhores condições de vida, quando nos países, com os modelos políticos que defendem, são proibidas todas e quaisquer manifestações. 
O texto vai longo e fico-me por aqui. Fazer política é um dever, mas ser informado é uma necessidade. Não deixemos, pois, de ter opinião e de fazer política. Exijamos sim a informação correcta a que temos direito para podermos decidir o que queremos e para onde desejamos ir.

Lídia Soares
Em Sociedade Justa

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