Falamos do final dos anos 50 do
século passado.
A primeira pessoa. Recordo-me de
lhe chamar senhora Gilberta. Na realidade, o nome dela era Maria, mas era
conhecida por Gilberta, por ser a “Maria do Gilberto”, sendo que o Gilberto era
o marido (ou seria o pai?). Morava depois dos Quatro Caminhos, lá para São
Mamede. Vinha a nossa casa, em Vila Real, algumas vezes por semana, para
trabalhos mais pesados, complementando aqueles que a “criada de dentro” fazia.
A Gilberta, recordo-me, tinha
buço e um cabelo muito preto, apanhado atrás. Andava com um passo rápido.
A segunda pessoa. Convenhamos,
para o que aqui conto, que se chamava Laurentino. Era meu colega de escola
primária. O Laurentino era mais alto do que a maioria de nós e o professor, o
Pena, tomou-o de ponta, sendo objeto das regulares reguadas nas mãos que, com
evidente sadismo, ele nos distribuía com abundância.
Um dia, foi anunciado que um
subsecretário de Estado da Educação ia visitar a nossa escola - que se chamava
Escola Conde de Ferreira, o nome de alguém que tinha feito fortuna no tráfico
de escravos e que, talvez para se absolver, tinha oferecido algumas dezenas de
edifícios idênticos pelo país.
Para a visita do governante, foi
pedido que os alunos tivessem uma bata. Nenhum de nós tinha bata. Os meus pais
mandaram fazer uma para mim. Foi usada um dia, só nesse dia, apenas para o
subsecretário nos ver, no breve minuto que passou na sala, connosco de braço
estendido em saudação dita romana (outros diriam fascista). Nunca mais a
usámos.
O Laurentino não esteve presente
nesse dia. Os pais não tinham dinheiro para lhe mandar fazer uma bata. Aliás,
não tinham dinheiro para muitas outras coisas.
Quer o aqui chamado Laurentino,
quer a Gilberta, andavam, o ano todo, descalços. Fizesse sol ou neve, que às
vezes também fazia, lá por Vila Real. Não me recordo dos pés do Laurentino, mas
lembro-me bem de notar que a parte dos pés da Gilberta que andava em contacto
com o chão tinha adquirido uma espécie de espessura, que funcionava como uma
segunda pele.
Esta é uma conversa desagradável?
Imagino que seja. Mas essa era a realidade do país da forte pobreza de alguns.
O salazarismo era isso. Era desagradável.
Publicado por Francisco Seixas da
Costa
Duas ou três coisas

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