Então, a língua portuguesa. Mas o
Dia Mundial da Língua Portuguesa foi ontem. Exatamente, o dia mundial da língua
portuguesa foi ontem e há muito tempo: poucas línguas foram ontem, mundiais e
há tanto tempo. Por isso falo hoje que ela tem amanhã. O português chegado a
Malaca há meio milénio, com Afonso de Albuquerque, já foi dado como morto. E,
se calhar, hoje já está mais para lá do que para cá, mesmo entre os cristangs,
descendentes dos portugueses. Mas não se pode dizer morta uma língua que,
porque já não tem amarras com o português fundador, olha para um avião e lhe
inventa um nome: "barco que voa".
Gosto tanto da minha língua. Um
dia, num aeroporto militar, eu ia partir para reportar a entrega de sacos de
farinha a uma cidade cercada pela guerra civil angolana. Sentada no chão e
encostada a uma parede, estava uma mãe jovem, a quem se agarravam dois garotos.
Ao seu lado, também, um saco de lona com alguma roupa indiciava que ela, de
onde vinha, tinha saído à pressa, e os seus olhos diziam que não escolhera para
onde ia. Estaquei, fingindo espreitar a pista, para ouvir o que ela cantava,
baixinho. "Atirei o pau ao gato, mas o gatu, não morreu..." Fiquei
até ao fim da litania, comigo (um migo antigo) e os meus companheiros de
língua.
Anos depois, desatou praí uma
indignação contra a crueldade daquela canção. E eu que a sabia tão doce, tão
cuidada, expondo a diferença entre o primeiro gato e o segundo, que é gatu, tal
como a minha mãe do Porto a cantou na minha infância em Luanda, eu a cantei à
minha filha, em Benfica, e aquela mulher, talvez de Maquela do Zombo, a cantava
aos seus meninos não sabendo para onde iam. Gato, gatu. Língua de gato. O gato
comeu-te a língua? Língua minha.
Então, a língua portuguesa.
Lembram-se da brincadeirinha do início da crónica? Aquela da língua de ontem,
de que hoje falo e prometo um longo amanhã? Língua de segunda, a da minha
crónica. Copiadinha de uma magnífica língua de todos os dias. A avô, Vavó Xixi,
do musseque vizinho do meu bairro, perguntou ao seu neto Zeca, um dia, e
Luandino Vieira ouviu. "Olha só, Zeca! O menino gosta de peixe
d'ontem?"
O rapaz não comia há muito tempo,
ou comia, mas raízes de dálias arrancadas dos canteiros, a fazer de conta que
era mandioca. "Ai, vavó, diz já, então! A lombriga está me chatear outra
vez. Diz vavó. Está onde então, peixe d'ontem?" E a avó: "Se gosta
peixe d'ontem, deixa dinheiro hoje, para lhe encontrar amanhã". Está
escrito no livro Luuanda e o autor estava preso no Tarrafal quando ganhou o
prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores por essa obra maior da minha
língua. Luandino Vieira ficaria preso oito anos preso no Tarrafal.
Quando do prémio, profissionais
da minha língua escreveram um despacho de agência noticiosa dizendo: "Um
dos premiados foi terrorista em Angola e está a cumprir pena pelos seus crimes.
Luandino Vieira, pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça, foi condenado a 22
de Junho de 1963, num tribunal de Luanda, a catorze anos de prisão, por crimes
de terrorismo praticados na província de Angola. Certamente a Sociedade
Portuguesa de Escritores concedera o prémio em virtude de não conhecer a
verdadeira identidade daquele indivíduo acusado e condenado por crimes tão
repugnantes." (ANI, Agência Nacional de Informação, 1965).
Na minha língua nunca foi feito
prova de terrorismo, de crime repugnante ou duma bofetada que fosse, contra
Luandino Vieira, com esse pseudónimo ou nome de batismo. Se Amália cantava
"Ó rua do Capelão, juncada de rosmaninho", sim, ele era capaz de
mudar o nome da Lavandula stoechas e escrever "arroz maninho".
Juncada de arroz maninho, arroz pequenino, deitado para o chão nos dias de
procissão a sair da igreja do Carmo... Rosmaninho não há em Angola e para
Luandino, aí ele era terrível, a minha língua era, é e será a língua de Angola.
E aí eu olho-o fascinado desde que o leio.
Mas percebam a minha língua, ela
é feita para fadistas de terras onde há plantas mediterrânicas e é feita para
escritores de cidades de terra vermelha e sem alfazema. A minha língua é
imensa. A minha língua é feita para historiadores como Rui Tavares, culto e
inteligente, capaz de sair das fotografias da Exposição do Mundo Português, de
1940. E dar-nos uma aula sobre o sentido histórico, simbólico e manipulador de
um país sem liberdade e, no entanto, então com a colaboração de grandes
artistas, de Leitão de Barros a Almada Negreiros. Isso tudo explicadinho, em cinco minutos, e numa língua para um país de 2020, moderno.
E a minha língua é também o eurodeputado Nuno Melo a falar dos bem pensados e bem explicados cinco minutos
de Rui Tavares, assim: "Entre tantos, Rui Tavares foi escolhido para a
tele-escola, destilando ideologia e transformando alunos em cobaias do
socialismo. Nem disfarçam. Uma aviltante e ignóbil revolução cultural em marcha
que pais sem recursos não podem evitar. Política travestida de educação.
Miséria."
Reparem, em 1965, Nuno Melo
talvez quisesse, como os propagandistas da ANI, o Rui Tavares no Tarrafal. Em
2020, Nuno Melo já aceita que Rui Tavares só seja impedido de se expressar. A
minha língua amacia com o passar do tempo.
Ferreira Fernandes
06 Maio 2020
No DN

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