1.
Não nos conhecemos. Na verdade,
não me parece sequer que nos tenhamos cruzado em alguma circunstância. Mas
tenho-a visto (eu e certamente a larga maioria dos portugueses) todos os dias a
dar a cara pela evolução da pandemia no nosso país.
2.
Posso imaginar a pressão diária,
mas apenas imaginar. Sem dúvida que se nota o cansaço, está mais magra,
impossível não o notar. Dá-me ideia, admito desde já a especulação, que se
irrita com algumas das críticas que lhe têm sido feitas, pressinto-lhe o
enfado.
É exatamente por isso que lhe
escrevo.
Quero dizer-lhe que, face às
circunstâncias, está a correr bem. Não ligue mais do que a conta à cólera da
maledicência e à ignorância atrevida. Nunca se esqueça de que Portugal é o país
de onde saíram os navegadores, mas também é o país em que ficaram os velhos do
Restelo a dizer mal dos navegadores.
3.
Imagino que a irrite muito.
De repente, a sua história e
percurso não servem para nada.
Todo o trabalho de dedicação à
saúde pública; a revolução que fez no sistema de vacinação português; as
centenas de médicos a quem influenciou com as suas aulas na Faculdade de
Medicina; o trabalho de sapa que permitiu que o seu antecessor brilhasse; os
elogios internacionais pelo seu contributo nas reuniões do Centro Europeu de
Prevenção e Controlo das Doenças.
Não, Dra. Graça Freitas, esqueça.
Para muitos comentadores,
autarcas ou agitadores de redes sociais isso não interessa nada. De repente,
são todos especialistas no que a senhora estuda há quarenta anos. São
imunologistas, matemáticos, físicos e tudo o resto de que se faz o cardápio do
grupo de trabalho que lidera.
4.
Errou várias vezes. Teve de
alterar previsões. Disse uma coisa nuns dias e teve de se desdizer noutros.
Imprudentemente falou demasiado cedo de situações que acabaram por não se
concretizar – atenção que em política os murros na mesa nunca se anunciam,
dão-se simplesmente. Por vezes falou com demasiada certeza, o que nunca é
avisado.
Mas pergunto-me se poderia ser de
outra maneira? Existia alguém que pudesse antecipar o que iria acontecer antes
de acontecer? Existiu algum precedente que pudesse ajudar a antecipar? Sei que
não. E isso obrigou a navegar à vista, a corrigir em mar alto, a tentar que a
viagem prosseguisse com o mínimo de danos.
5.
Ao ouvir determinadas pessoas a
gritarem-lhe ao ouvido imagino o que seria se não estivesse a cumprir os
objetivos. Imagino o que seria se Portugal tivesse os mortos (em proporção) de
Espanha, Itália, Inglaterra ou França. Imagino o que seria se Portugal não
fosse elogiado pelo New York Times, se o El País não nos definisse como os “suecos
do sul” ou se tantos investigadores não estivessem a elogiar-nos pelo trabalho
feito nesta primeira fase da pandemia. O que seria, Graça? Consegue imaginar?
6.
Sei que gosta de cuidar das suas
orquídeas, li algures. Aposto que também gostará de Confúcio que tratava as
orquídeas com paixão e zelo. Gabava-lhes a beleza e a delicadeza. E foi
Confúcio quem, muito a propósito, nos deixou a frase definitiva: “O que
sabemos, saber que o sabemos. Aquilo que não sabemos, saber que não o sabemos:
eis o verdadeiro saber.
Graça Freitas
Luís Osório
No Facebook


Sem comentários:
Enviar um comentário