Nestes dias de confinamento
justificam-se alguns comportamentos bipolares: se por um lado podemos
congratularmo-nos por vivermos na sétima melhor democracia do mundo, de acordo
com o estudo apresentado pelo instituto sueco V-Dem, podemos sempre imaginar
onde nos situaríamos acaso ainda suportássemos Passos Coelho como
primeiro-ministro, ou mesmo Rui Rio, por muito assertivo, que se queira revelar
nestas circunstâncias.
Prosseguindo no mesmo registo
podemos acreditar existirem muitos crédulos finalmente convencidos de não
precisarem de um qualquer deus para os aliviar do terrível vírus, mas também
constatamos quão imbecil é a teimosia fanática dos organizadores do compasso em
Barcelos.
Inquietamo-nos com o que
significará um défice de dois dígitos no PIB deste ano, mas podemos ganhar
algum alento com a probabilidade de vermos a TAP ser a primeira empresa a
re-nacionalizar-se de quantas as direitas entregaram criminosamente aos
interesses privados.
Preocupam-nos as limitações ainda
verificadas no Serviço Nacional de Saúde, mas confiamos que ele ficará mais
robusto em meios humanos e materiais depois de vencida esta crise. Ademais com
capacidade de concorrer com outra eficácia contra quem vê na medicina um
negócio, demonstrando-o de formas indecorosas nos últimas dias com o episódio
da tentativa de cobrança ao Estado de doentes, que ele não lhes encaminhara.
Estranhamos o modelo de regresso
às aulas neste terceiro período, mas saudamos o que António Costa promete para
o próximo ano letivo: o investimento em equipamentos e acesso à internet para
todos os alunos no próximo ano, que potenciará a relevância do ensino público.
Ouvimos a decisão do governo em
não repetir a receita de resposta à crise económica imposta há dez anos e que
se traduziu em cortes de salários, de pensões e de serviços públicos,
acentuando a queda no consumo e no investimento, penalizando a atividade
económica, a criação de emprego e as contas públicas, como no-lo recordou
Ricardo Paes Mamede num excelente texto no «Diário de Notícias» de hoje. Mas
adivinhamos as dificuldades em exigir à União Europeia a revisão de Tratados
para não deixar cada país entregue a si mesmo com dívidas acima dos 150%.
Temos tanto maior razão para
confiar neste governo quanto, em contraponto, lemos na entrevista de Miranda
Sarmento ao «Eco» que, aquele a quem Rui Rio apoda de «seu Centeno», considera
esses constrangimentos como irreversíveis pondo-se na posição, que Diogo
Martins no «Ladrões de Bicicletas» compara com a da mãe católica a quem a filha
confessa a vontade de se divorciar, porque violentada pelo marido e lhe riposta:
«casaste com ele, agora aguenta».
Não! Manifestamente não casámos
com a União Europeia para uma relação que nos prejudique. Acaso tal suceda há
que ter a coragem de dizer não. Marques Mendes ou Paulo Rangel, cultores da
lamentável tese cavaquista do «bom aluno», prefeririam de António Costa a
postura do antecessor, sempre timorato nas reuniões europeias, desprezado pelos
demais, remetido para um canto. Com António Costa sabemos que não será assim:
aquilo que o deputado europeu do PSD considera uma bravata é muito mais do que
isso: é a afirmação corajosa de um líder que baterá o pé e não se renderá aos
ditames de quem não se mostra à altura do que o atual momento político exige.
Publicada por jorge rocha
Do blogue Ventos Semeados

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