Tem sido um fartar de críticas. Mas o vinte e cinco de Abril vai ao ponto de ser generoso com quem não gosta dele. Por isso as críticas, para ele, leva-as o vento. Uma das críticas com mais relevância são:
Se estamos confinados, se na Páscoa não se pode receber familiares, tais como pais, filhos, irmãos, como se pode ter a ousadia de se celebrar o vinte e cinco de Abril na Assembleia da República? Outros referem que há mais de um mês que não está com a esposa e filhos. Não estão presencialmente. Por que na era das novas tecnologias há uma panóplia de programas para se falar e ser visto. Refiro-me ao Facebook, Skype e outros.
Mas nunca se referiram a quem nunca praticou nenhum mal e foi afastado por tempo indeterminado, outros para toda a vida. Sim!
Refiro-me há década de sessenta, setenta, do século passado, em que éramos mobilizados, (obrigados) a bater com os costados, na defesa de interesses de uns poucos. Sim! Refiro-me a mim e a uns quantos como eu. Mas falando de mim.
Como disse nunca vi nenhum “presencialmente” a contestar o que me aconteceu. No dia catorze de Abril de mil novecentos e setenta e um despedi-me dos meus pais, irmãos, namorada e alguns amigos para no dia dezassete embarcar para Angola. Debaixo de lágrimas desses familiares. Só no dia quatro de Abril de mil novecentos e setenta e três os voltei a ver.
Nesses meses – mais de setecentos dias – não me podia socorrer do Facebook e Skype. Eram cartas e aerogramas, mais estes, porque as cartas eram mais dispendiosas.
Eu e muitos outros ainda tivemos a sorte, ao contrário de outros que a sua despedida foi para sempre.
Passado um ano de estar junto dos meus aconteceu a coisa mais extraordinariamente que foi o vinte e cinco de Abril. Para mim e maioria dos portugueses.
Para outros não. São os que eu designo por “bastardos” do vinte e cinco de Abril e, pelo que vejo, ainda acérrimos defensores do vinte e quatro de Abril.
Disse, acima: “aconteceu a coisa mais extraordinariamente que foi o vinte e cinco de Abril”.
Dos vários bens que trouxe, um, foi o acabar com a guerra ultramarina. Não me devia alegrar com isso. Se bati lá com os costados outros haviam de os bater também. Só que tinha irmãos que lhes ia acontecer o mesmo.
Não queria ver agora o rosto de sofrimento dos meus pais presencialmente, como viram, os meus irmãos.
Por isso ficar admirado de ver jovens serem “bastardos do vinte e cinco de Abril”.
De poderem seguir os estudos até ao décimo segundo ano. De não serem só os filhos dos abastados a seguir esses estudos. Vi muitos, eu incluído, a ficar pelo caminho. A nossa signa estava traçada: uns empregados fabris outros na construção civil. Era o que acontecia aos Freamundenses.
Para fazer o sexto ano, para progressão na carreira, fi-lo aos trinta e nove anos, autoproposto. De vinte e oito, a maioria jovens, fui o único a passar a tudo e com distinção. Os outros vinte e sete concluíram-no mais tarde. A maioria era para tirar carta de condução.
É isto que me apraz dizer aos “bastardos do vinte e cinco de Abril”.
Mas sei que que não leva a nada. Estes são o contrário dos adágios populares: “água mole em pedra dura tanto dá que até fura”. Ou: “é chover no molhado.
Mas que fiquem na paz do vinte e quatro.
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