Nasci num ano do século passado mau. Tinha acabado a Segunda Guerra Mundial em mil novecentos e quarenta e quatro e nasci em quarenta e nove. Por esta altura ainda se sentia o efeito da desgraça que a guerra trouxe a todo o Mundo, principalmente a Portugal, um País mirrado, pelo mau desempenho dos seus governantes.
Tive uma infância pobre. Não fossem os meus pais pobres. Era pequeno, a minha memória não mo recorda, mas os meus pais pela vida fora em jeito de conversa, quando reclamava por algo diziam: se não voltares a comer caldo de saramago dá-te por feliz. Portanto, não me lembro, mas não passei ao lado do caldo de saramagos.
Na minha meninice não pude fugir ao Leite em Pó e ao Caldo de feijão Vermelho que era distribuído na Cantina Escolar. Não fugindo ao Óleo de Fígado de Bacalhau. De bacalhau uma ova! Se fosse de bacalhau não sabia tão mal.
No Ensino Primário andei quatro anos que é o mesmo que dizer nunca reprovei um ano. Em Julho de mil novecentos e sessenta a meio do mês lá dei inicio à minha vida laboral.
Ganhava uma recolaria, mas era indispensável às finanças da casa.
A minha mãe de quinze em quinze dias lá fazia contas às reduzidas finanças para pagar a despesa na mercearia de quinze dias atrás. Iam todas.
Pela década de setenta, ainda do século passado, a vida para a maioria das famílias portuguesas começou a sorrir.
Para mim, nos primeiros três anos dessa década, a vida complicou-se. Tive de iniciar a vida militar. Ninguém fugia a esta sina. Nem os mancos. Não era o meu caso, que era perfeitinho da silva.
Durante dois meses lá voltou a fome. Não era que faltasse comida. Era mal confeccionada. Ao entramos no refeitório era um cheiro que até dava vómitos.
Acabei a recruta e fui para Lisboa, Campolide, tirar a especialidade.
A vida melhorou no aspecto das refeições. Mas ficava a uma distância de trezentos e sessenta quilómetros. Fins-de-semana a partir do meio dia de sábado. Era chegar a Freamunde por volta das vinte horas para ao outro dia, Domingo, há mesma hora abalar para Lisboa. Na segunda-feira nas aulas era um sono que nem queiram saber. Pudera! Era toda a noite em viagem.
Acabei a especialidade.
Vim para o Porto para o CICA1. Aqui estava melhor. A trinta quilómetros de casa e situado nuns dos melhores locais do Porto. O Palácio Cristal ali à beira. Podia-se ir ao engate das sopeiras aos fins-de-semana no Palácio. Não era o meu caso. Se não estivesse de serviço vinha para Freamunde. Para mais que tinha boleia garantida com o “Toninho do Alão” que tinha carro e ali prestava serviço como Condutor Auto-Rodas.
Até tive direito a um mês de férias em Fevereiro.
Só que quando me apresentei no dia um de Março de setenta e um estava mobilizado para ir para Angola. No dia dois tinha de me apresentar no Campo Militar de Santa Margarida. Era o único do CICA1 a ir para ali. Mais um transtorno na vida.
Cheguei a Santa Margarida e só conhecia o Barroso da mesma especialidade que eu. Os outros, da mesma especialidade, não me recordava deles. Ficamos amigos pela vida fora.
Em Angola, Balacende, ficamos isolados durante vinte e três meses. Hoje não estranho o isolamento. Regressei à Metrópole em setenta e três para passar à “peluda”, termo usado por militares.
Passados poucos dias retomei a minha actividade profissional.
Passado um ano e tal dá-se o vinte e cinco de Abril. De política nada percebia. Só sabia que ia ser bom para acabar com a guerrilha em África. É que passados uns anos tinha um irmão que de certeza ia dar lá com os costados. Não era porque fosse mais que eu. Mas era por causa do desgosto de meus pais.
Entretanto casei.
O que é certo é que a vida das famílias se modificou para melhor com o vinte e cinco de Abril.
Em mil novecentos e oitenta a minha vida modificou-se radicalmente. Fui para funcionário público – Serviços Prisionais – Em princípio dificuldades. Depois a melhorar.
Até que veio a crise de dois mil e oito.
Fui bastante prejudicado. Era a retirada de regalias. Subsídio de férias e de Natal.
Deram-me um rombo nas finanças. Crise ruim de suportar. O Governo de então foi forte com os fracos e fraco com os fortes.
Quando tudo estava a melhorar outra crise nos bate à porta. Diferente da de dois mil e oito. Aqui ninguém está excluído. Toca a todos.
Só que me deixa triste.
Não é por mim porque como já descrevi a minha vida já é um pouco longa. Também não pelos meus filhos que se podem desenrascar. É pelos seus filhos – meus netos – a minha preocupação.
Jovens. O mais novo dentro de dias faz um ano. Os outros dois – tenho três – um catorze e outro dezassete. Tem um “mundo” à sua frente.
Só não queria – a Europa não entra em acordo – que não comam caldo de saramagos como o seu avô.
Tive uma infância pobre. Não fossem os meus pais pobres. Era pequeno, a minha memória não mo recorda, mas os meus pais pela vida fora em jeito de conversa, quando reclamava por algo diziam: se não voltares a comer caldo de saramago dá-te por feliz. Portanto, não me lembro, mas não passei ao lado do caldo de saramagos.
Na minha meninice não pude fugir ao Leite em Pó e ao Caldo de feijão Vermelho que era distribuído na Cantina Escolar. Não fugindo ao Óleo de Fígado de Bacalhau. De bacalhau uma ova! Se fosse de bacalhau não sabia tão mal.
No Ensino Primário andei quatro anos que é o mesmo que dizer nunca reprovei um ano. Em Julho de mil novecentos e sessenta a meio do mês lá dei inicio à minha vida laboral.
Ganhava uma recolaria, mas era indispensável às finanças da casa.
A minha mãe de quinze em quinze dias lá fazia contas às reduzidas finanças para pagar a despesa na mercearia de quinze dias atrás. Iam todas.
Pela década de setenta, ainda do século passado, a vida para a maioria das famílias portuguesas começou a sorrir.
Para mim, nos primeiros três anos dessa década, a vida complicou-se. Tive de iniciar a vida militar. Ninguém fugia a esta sina. Nem os mancos. Não era o meu caso, que era perfeitinho da silva.
Durante dois meses lá voltou a fome. Não era que faltasse comida. Era mal confeccionada. Ao entramos no refeitório era um cheiro que até dava vómitos.
Acabei a recruta e fui para Lisboa, Campolide, tirar a especialidade.
A vida melhorou no aspecto das refeições. Mas ficava a uma distância de trezentos e sessenta quilómetros. Fins-de-semana a partir do meio dia de sábado. Era chegar a Freamunde por volta das vinte horas para ao outro dia, Domingo, há mesma hora abalar para Lisboa. Na segunda-feira nas aulas era um sono que nem queiram saber. Pudera! Era toda a noite em viagem.
Acabei a especialidade.
Vim para o Porto para o CICA1. Aqui estava melhor. A trinta quilómetros de casa e situado nuns dos melhores locais do Porto. O Palácio Cristal ali à beira. Podia-se ir ao engate das sopeiras aos fins-de-semana no Palácio. Não era o meu caso. Se não estivesse de serviço vinha para Freamunde. Para mais que tinha boleia garantida com o “Toninho do Alão” que tinha carro e ali prestava serviço como Condutor Auto-Rodas.
Até tive direito a um mês de férias em Fevereiro.
Só que quando me apresentei no dia um de Março de setenta e um estava mobilizado para ir para Angola. No dia dois tinha de me apresentar no Campo Militar de Santa Margarida. Era o único do CICA1 a ir para ali. Mais um transtorno na vida.
Cheguei a Santa Margarida e só conhecia o Barroso da mesma especialidade que eu. Os outros, da mesma especialidade, não me recordava deles. Ficamos amigos pela vida fora.
Em Angola, Balacende, ficamos isolados durante vinte e três meses. Hoje não estranho o isolamento. Regressei à Metrópole em setenta e três para passar à “peluda”, termo usado por militares.
Passados poucos dias retomei a minha actividade profissional.
Passado um ano e tal dá-se o vinte e cinco de Abril. De política nada percebia. Só sabia que ia ser bom para acabar com a guerrilha em África. É que passados uns anos tinha um irmão que de certeza ia dar lá com os costados. Não era porque fosse mais que eu. Mas era por causa do desgosto de meus pais.
Entretanto casei.
O que é certo é que a vida das famílias se modificou para melhor com o vinte e cinco de Abril.
Em mil novecentos e oitenta a minha vida modificou-se radicalmente. Fui para funcionário público – Serviços Prisionais – Em princípio dificuldades. Depois a melhorar.
Até que veio a crise de dois mil e oito.
Fui bastante prejudicado. Era a retirada de regalias. Subsídio de férias e de Natal.
Deram-me um rombo nas finanças. Crise ruim de suportar. O Governo de então foi forte com os fracos e fraco com os fortes.
Quando tudo estava a melhorar outra crise nos bate à porta. Diferente da de dois mil e oito. Aqui ninguém está excluído. Toca a todos.
Só que me deixa triste.
Não é por mim porque como já descrevi a minha vida já é um pouco longa. Também não pelos meus filhos que se podem desenrascar. É pelos seus filhos – meus netos – a minha preocupação.
Jovens. O mais novo dentro de dias faz um ano. Os outros dois – tenho três – um catorze e outro dezassete. Tem um “mundo” à sua frente.
Só não queria – a Europa não entra em acordo – que não comam caldo de saramagos como o seu avô.

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