Eu fui o filho que deu sempre
mais problemas aos meus pais, ou seja o único que não parava de dar problemas
aos meus pais. Era mau aluno
(os meus irmãos eram brilhantes)
não me interessava pelas aulas,
não estudava, tinha sempre nota de mau comportamento, não falava às amigas da
minha mãe que não me interessavam, as minhas notas eram miseráveis, não
reprovei porque o meu avô tinha dois camaradas do Colégio Militar que eram
professores no Camões e arranjavam maneira de eu receber, no último período, as
classificações que precisava para não chumbar, de modo que acabei o secundário
aos dezasseis anos sem nunca ter estudado. A minha mãe foi algumas vezes ao
Camões e voltava sempre deprimida com o que lhe contavam de mim. Numa das
ocasiões em que lá foi espreitou a minha turma pela janela e voltou aterrada
porque eu me achava sentado ao contrário na carteira, a olhar para o tecto.
Segundo ela a setora de Francês perguntou-lhe
– Como é que eu podia chumbar
aqueles olhos azuis?
e a minha mãe chegou a casa capaz
de estrangular-me, a repetir advérbios de modo que levou a minha infância a
atirar-me à cara:
– Francamente
e recordo-me de a ouvir dizer ao meu
pai, julgando que eu não estava na sala
– Se ao menos ele fosse estúpido
eu ainda compreendia
comigo a sentir-me um bicho
esquisito que passava o tempo a ler e a escrever e, nos intervalos, a fazer
asneiras, como por exemplo usar as jarras de flores para fazer chichi,
espalhando pela casa um cheiro horrível, às vezes difícil de localizar. Uma
ocasião, para aí com treze ou catorze anos, o meu pai, ao acordar, descobriu-me
a dormir no meu quarto com as portadas fechadas. Abriu-as de rompante, furioso,
eu descerrei um olho, perguntei
– Veio assistir ao acordar de um
génio?
ele ficou a olhar-me, de boca
aberta, e muitos anos depois ainda me falava neste episódio, com uma cara
esquisita que me parecia ter lá dentro, escondido, uma espécie, que estranho,
de orgulho. Mas suportou em silêncio, ele que era bravo e colérico, os três
anos que passei sem pôr os pés no hospital, depois de me matricularem em
Medicina, ocupado com um poema longuíssimo que devia ser fresco e acabou no
cesto dos papéis como tudo aquilo que eu produzia, furioso com a bodega dos
resultados. Mas continuava, certo de que iria conseguir obras primas se
persistisse nas minhas pobres tentativas. Estou para saber de onde me vinha
aquela fé. E, a fim de resolver o problema dos estudos
(enquanto tentava resolver o
problema da escrita)
chantageei a minha pobre mãe
– Se me der a carta de condução
eu faço as cadeiras todas na primeira época.
Ela, coitada, aceitou
(o que são as mães)
E disparei até ao fim do curso
como um foguete, surpreendido por aquilo ser tão fácil. Até tive alguns
dezoitos pelo meu meio, palavra, banzado
– Afinal nem demora muito tempo e
é canja
genuinamente banzado que ser
médico fosse uma questão de caracacá. Depois da volta da guerra, com o balanço,
pulei os concursos todos na broa, entrei sempre nas vagas a que concorri,
fiquei um doutor da mula ruça do caraças, cada vez ia gostando mais da
Medicina, acho que fui um médico competente mas os cabrões dos livros não me
largavam de modo que tive, com pena, de deixar tudo o resto por eles. Espero
que os meus pais os leiam lá no Céu, eles que se calhar os leram cá na Terra
mas isso era um assunto de que nunca me falaram. Nem eu com eles.
A merda do pudor, a merda da
distância, e logo comigo que tenho tantas saudades vossas e me sinto tão
arrependido de vos ter inquietado. Mas, entendam-me por favor, o que podia eu
fazer, não é? E agora não sei se assine António ou Ovelha Ronhosa. No fundo é
igual ao litro. Quando chegar onde estão prometo-vos que não faço chichi em
nenhuma jarra, antes que São Pedro vos venha com a conversa do costume:
– Esse vosso filho é incorrigível,
não é?
E se calhar sou, paizinhos. Se
calhar sou.
Por Eduarda Mendes
No Facebook

Sem comentários:
Enviar um comentário