À partida julgaria improvável que
a desumanidade de uns quantos energúmenos não chegasse à dimensão do sucedido
na localidade andaluza de La Linea de la Concepcion: as ambulâncias que
transportaram vinte e oito idosos infetados foram apedrejadas e as instalações
que os receberam atacadas com engenhos explosivos. Mas, depois, associando a
notícia com a de alguns meses e atrás quando as direitas espanholas celebraram
o afastamento do PSOE do governo da Andaluzia pela primeira vez em democracia,
porque se associaram aos fascistas do Vox, entendemos melhor o significado
profundo do sucedido. Porque tem-se verificado em vários países a confirmação
do provérbio: junta-te aos bons, e serás como eles; junta-te aos maus e serás
pior que eles.
De facto enquanto vigoraram
linhas vermelhas a impedirem que partidos cristãos-democratas se associassem às
extremas-direitas, aqueles continuaram a mascarar a sua natureza por trás de
alguns princípios tidos como essenciais. Mas tão só dispostos a aliarem-se a
elas para mais facilmente destronarem as esquerdas do poder, constatou-se
espúria qualquer distinção entre uns e outros.
O exemplo andaluz serve-nos de
pré-aviso quanto ao que pode suceder se, confirmando o que disseram nas
respetivas campanhas internas, os líderes do PSD e do CDS não vejam qualquer
problema em aliarem-se ao Chega. Uma sociedade em que um tipo de aliança desse
tipo se forja prescinde dos seus principais valores civilizacionais e adota
comportamentos bárbaros. Não foi por acaso que, no tempo da troika, um deputado
do PSD falou da dispensável peste grisalha. Os conceitos desse timbre agitam-se
nessas cabeças e, acaso encontrem alibi nas alianças às extremas-direitas, saem
livremente sem qualquer moderação quanto a uma ética, em que efetivamente não
se reconhecem.
Vemos isso lá fora, quando
Bolsonaro arrisca a vida de milhões de brasileiros considerando o covid-19 uma
espécie de «resfriadinho». Ou Trump, que quer a economia a funcionar plenamente
antes da Páscoa, porque sabe o destino a
si reservado ao chegar à eleição de novembro com a bolsa muito abaixo das
cotações de há três anos e meio e a taxa de desemprego a alcançar uns
históricos 13% como prevê a Morgan Stanley. Ou ainda Viktor Orban, que dando um
passo mais na sua absoluta ditadura, quer passar a governar por decreto. Ou
Netanyahu, que aproveita a crise sanitária para adiar mais uma vez o seu
encontro com o cárcere.
Mas todos esses são crápulas de
alto gabarito. Não se pense, porém, que os não temos em dimensão mais reduzida,
mas igualmente nociva, como sucede com os alarmismos do vice-presidente do PSD,
que é edil em Ovar e põe em causa os números da Direção Geral de Saúde como se
não nos lembrássemos de como ignorou os conselhos para não levar por diante os
festejos de Carnaval. Ou outro autarca do PSD, Almeida Henriques - notório
passista e apoiante de Montenegro - que
veio reclamar para o hospital de Viseu meios para ele não previstos por não ser
considerado de primeira linha no combate ao flagelo. Ou ainda os jornalistas
que interpelam Graça Freitas e o secretário de Estado, ou a ministra da Saúde,
nas conferências de imprensa do meio-dia, cujas perguntas acintosas merecem,
segundo o diretor do «Diário de Notícias», que se os convidem a irem dar banho
ao cão.
Estamos, pois, num tempo em que a
barbárie, a estupidez e o oportunismo andam de mãos dadas para contrariarem
aquilo que a maioria dos portugueses já reconheceu nas sondagens dos últimos
dias: que António Costa é o político mais confiável para levá-los a superar
este momento difícil. Não admira, por isso, que prevendo o quanto isso porá em
causa os seus interesses ideológicos, José Miguel Júdice ande a clamar por um
governo de unidade nacional. Ele sabe que, vencida a tormenta, o eleitorado
apoiará quem se mostrou à altura das circunstâncias quando elas se
declararam...
Publicada por jorge rocha
Do blogue Ventos Semeados

Sem comentários:
Enviar um comentário