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terça-feira, 24 de março de 2020

Governo de Salvação Nacional — e a catilinária de um Esteves:


O vírus do Partido Comunista Chinês está entre nós, irmãos! (Palavras do Esteves)

Vivemos tempos de febres e delírios. Uma nova estirpe de vírus espalha-se pelo mundo, uma praga de gafanhotos em África, uma vaga de alucinados alcançou os comandos de várias grandes naves, agora naves de loucos dirigidas por Trump, Boris Johnson ou Bolsonaro. Neste cenário, surgem os habituais estigmatizados e milenaristas a clamarem às portas das feiras, de braços elevados aos céus a anunciar o Apocalipse.

Um desses milenaristas aproveitou um púlpito de ocasião no semanário o Sol para implorar ao Presidente da República por um governo de salvação nacional!

Do que nos quer salvar o arcanjo? São palavras dele: “O vírus chinês — ou, mais rigorosamente, o vírus do Partido Comunista Chinês (sic) — continua a matar inocentes, a espalhar o medo e a tornar o pânico o sentimento dominante nas comunidades.”

Para fazer face ao vírus do Partido Comunista Chinês, que mata inocentes (os pecadores estão a salvo) o proponente declara o país em guerra e afirma que “os portugueses não perceberão se Marcelo Rebelo de Sousa não exigir um Governo de Salvação Nacional, pelo menos, até ao final de 2021/início de 2022.”

Contra o vírus do Partido Comunista Chinês marchar!

É um típico discurso de alucinado apocalíptico. Os discursos apocalípticos são irracionais, mas os seus pregadores são normalmente corruptores com algum sucesso, em especial em tempos de crise. São como as moscas varejeiras. Há que os tratar como tal. Não os podemos ignorar, sob pena de eles nunca mais nos largarem.

Para os interessados: Este salvador chama-se Esteves e publicou a sua catilinária no dia 22 de Março.

“Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? (…) Não vês que a tua conspiração foi dominada pelos que a conhecem?”

De salvadores, aprecio e admiro os nadadores salvadores. Portugal está a afogar-se? Duvido. Já boiamos há vários séculos, mas o dito alucinado não sabe nadar. Também aprecio, e muito, os salvadores da Força Aérea que recuperam pessoas em situações de grande risco. Salvadores de pátrias, sou contra. Vejo-os sempre como os figurões a propósito dos quais os italianos criaram o velho (mas católico) provérbio: “o dinheiro público é como água benta, todos lá querem colocar a mão”.

Quando oiço falar em salvação penso em evangelistas que pretendem viver à conta de me convencerem que necessito de ser salvo. Estes salvadores querem salvar-me de quê e de quem?

A proposta de um governo de salvação nacional é, como parece evidente, um balão de ensaio lançado por incapazes de tratarem da sua vida, de cantarem as suas cantigas, tocarem os seus instrumentos, de venderem os seus produtos, que se serviram de um sem-abrigo político, este Esteves, para abrir caminho e levar as primeiras pedradas.

Imagino que os autores por detrás do dito Esteves estejam a pensar neles próprios para membros de um tal governo e não em que Marcelo Rebelo de Sousa convide o bombeiro Marta Soares para as emergências, a enfermeira Cavaca para os respiradouros de ar, o padre Portocarrero para as almas, o cozinheiro Ljubomir Stanisic para alimentar os corpos e a jornalista Moura Guedes para porta-voz.

Antes da salvação convinha que os candidatos a salvadores nos dessem a sua ideia do que é um governo e para que serve. À falta de explicações do biscateiro Esteves, recorro a quem pensou no assunto e merece crédito há séculos.

Sobre a necessidade de governo, Nicolau Maquiavel considerava que governar é orientar as ações humanas, realizar benfeitorias públicas coletivas e garantir aos povos condições materiais e culturais essenciais. O governo surge como uma necessidade e como um bem comum ou coletivo, e funda a sua ação na base do desejo de uma vida humana pacífica, segura e feliz.

Nos livros dos Discorsi, a propósito do “Bom Governo”, Maquiavel estabeleceu a necessidade de os governantes agirem de acordo com uma avaliação adequada das circunstâncias e das condições da ação política, o que implica ter consciência das possíveis adversidades, dos inimigos e das suas capacidades e meios. Ação adequada resulta, para Maquiavel, da aliança da ousadia à prudência, que devem ser usadas em maior ou menor grau consoante ditarem as circunstâncias envolvidas e as necessidades exigidas. A unidade de comando, é um princípio de guerra, e o exemplo clássico dessa vantagem é a vitória de Aníbal, em Canas, contra a dualidade do comando romano, exercido por dois cônsules.
O “Bom Governo” é o que ouve em tempo de paz e comanda em tempo de guerra. Atuar assim exige confiança entre os que comandam e os comandados. Exige coesão no quartel-general, para referir um chinês, Mao Tse Tung.

O “Bom Governo” é, em suma, o oposto do governo de salvação nacional proposto pelo Esteves e correlativos.

Ainda quanto à minha desconfiança sobre as virtudes de governos de salvação nacional e referendos, mais uma citação, desta vez de um liberal americano, professor na Universidade de Stanford, Thomas Sowell: “É estúpido deixar as decisões àqueles que não pagarão preço algum por equivocar-se”.

Este Esteves é apenas o burladero atrás do qual se escondem aqueles que não pagaram nenhum preço pelos seus equívocos e até se reuniram há pouco em conclave para voltarem a meter a mão na pia da água benta do Estado, um movimento de refundação do que designam por Direita. Entre eles encontram-se os que há uns anos negociaram as PPP com os grupos privados de saúde. Os tais grupos que, como se verifica agora, são incapazes de contribuírem para combater na guerra contra a epidemia. Acresce — para a anedota do Esteves ser completa — que algumas das parcerias foram estabelecidas com o Partido Comunista Chinês (além da EDP, é caso do antigo Espírito Santo Saúde, agora Luz), criador do dito vírus do Partido, nas palavras do autor!

Será pois estúpido dar algum crédito a troca-tintas desta espécie do Esteves e patrocinadores. Deles se dirá como diziam as tropas das frentes de batalha da artilharia: Deus nos salve deles (e da nossa artilharia), porque do inimigo nos salvamos nós!

Havemos de nos livrar primeiro do dito vírus do Partido Comunista Chinês do que destes vendedores de banha de cobra! Um mal de cada vez.

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