O vírus do Partido Comunista
Chinês está entre nós, irmãos! (Palavras do Esteves)
Vivemos tempos de febres e
delírios. Uma nova estirpe de vírus espalha-se pelo mundo, uma praga de
gafanhotos em África, uma vaga de alucinados alcançou os comandos de várias
grandes naves, agora naves de loucos dirigidas por Trump, Boris Johnson ou
Bolsonaro. Neste cenário, surgem os habituais estigmatizados e milenaristas a
clamarem às portas das feiras, de braços elevados aos céus a anunciar o
Apocalipse.
Um desses milenaristas aproveitou
um púlpito de ocasião no semanário o Sol para implorar ao Presidente da
República por um governo de salvação nacional!
Do que nos quer salvar o arcanjo?
São palavras dele: “O vírus chinês — ou, mais rigorosamente, o vírus do Partido
Comunista Chinês (sic) — continua a matar inocentes, a espalhar o medo e a
tornar o pânico o sentimento dominante nas comunidades.”
Para fazer face ao vírus do
Partido Comunista Chinês, que mata inocentes (os pecadores estão a salvo) o
proponente declara o país em guerra e afirma que “os portugueses não perceberão
se Marcelo Rebelo de Sousa não exigir um Governo de Salvação Nacional, pelo
menos, até ao final de 2021/início de 2022.”
Contra o vírus do Partido
Comunista Chinês marchar!
É um típico discurso de alucinado
apocalíptico. Os discursos apocalípticos são irracionais, mas os seus
pregadores são normalmente corruptores com algum sucesso, em especial em tempos
de crise. São como as moscas varejeiras. Há que os tratar como tal. Não os
podemos ignorar, sob pena de eles nunca mais nos largarem.
Para os interessados: Este
salvador chama-se Esteves e publicou a sua catilinária no dia 22 de Março.
“Até quando, Catilina, abusarás
da nossa paciência? (…) Não vês que a tua conspiração foi dominada pelos que a
conhecem?”
De salvadores, aprecio e admiro
os nadadores salvadores. Portugal está a afogar-se? Duvido. Já boiamos há
vários séculos, mas o dito alucinado não sabe nadar. Também aprecio, e muito,
os salvadores da Força Aérea que recuperam pessoas em situações de grande
risco. Salvadores de pátrias, sou contra. Vejo-os sempre como os figurões a
propósito dos quais os italianos criaram o velho (mas católico) provérbio: “o
dinheiro público é como água benta, todos lá querem colocar a mão”.
Quando oiço falar em salvação penso
em evangelistas que pretendem viver à conta de me convencerem que necessito de
ser salvo. Estes salvadores querem salvar-me de quê e de quem?
A proposta de um governo de
salvação nacional é, como parece evidente, um balão de ensaio lançado por
incapazes de tratarem da sua vida, de cantarem as suas cantigas, tocarem os
seus instrumentos, de venderem os seus produtos, que se serviram de um
sem-abrigo político, este Esteves, para abrir caminho e levar as primeiras
pedradas.
Imagino que os autores por detrás
do dito Esteves estejam a pensar neles próprios para membros de um tal governo
e não em que Marcelo Rebelo de Sousa convide o bombeiro Marta Soares para as
emergências, a enfermeira Cavaca para os respiradouros de ar, o padre
Portocarrero para as almas, o cozinheiro Ljubomir Stanisic para alimentar os
corpos e a jornalista Moura Guedes para porta-voz.
Antes da salvação convinha que os
candidatos a salvadores nos dessem a sua ideia do que é um governo e para que
serve. À falta de explicações do biscateiro Esteves, recorro a quem pensou no
assunto e merece crédito há séculos.
Sobre a necessidade de governo,
Nicolau Maquiavel considerava que governar é orientar as ações humanas,
realizar benfeitorias públicas coletivas e garantir aos povos condições
materiais e culturais essenciais. O governo surge como uma necessidade e como
um bem comum ou coletivo, e funda a sua ação na base do desejo de uma vida
humana pacífica, segura e feliz.
Nos livros dos Discorsi, a
propósito do “Bom Governo”, Maquiavel estabeleceu a necessidade de os
governantes agirem de acordo com uma avaliação adequada das circunstâncias e
das condições da ação política, o que implica ter consciência das possíveis
adversidades, dos inimigos e das suas capacidades e meios. Ação adequada
resulta, para Maquiavel, da aliança da ousadia à prudência, que devem ser
usadas em maior ou menor grau consoante ditarem as circunstâncias envolvidas e
as necessidades exigidas. A unidade de comando, é um princípio de guerra, e o
exemplo clássico dessa vantagem é a vitória de Aníbal, em Canas, contra a
dualidade do comando romano, exercido por dois cônsules.
O “Bom Governo” é o que ouve em
tempo de paz e comanda em tempo de guerra. Atuar assim exige confiança entre os
que comandam e os comandados. Exige coesão no quartel-general, para referir um
chinês, Mao Tse Tung.
O “Bom Governo” é, em suma, o
oposto do governo de salvação nacional proposto pelo Esteves e correlativos.
Ainda quanto à minha desconfiança
sobre as virtudes de governos de salvação nacional e referendos, mais uma
citação, desta vez de um liberal americano, professor na Universidade de
Stanford, Thomas Sowell: “É estúpido deixar as decisões àqueles que não pagarão
preço algum por equivocar-se”.
Este Esteves é apenas o burladero
atrás do qual se escondem aqueles que não pagaram nenhum preço pelos seus
equívocos e até se reuniram há pouco em conclave para voltarem a meter a mão na
pia da água benta do Estado, um movimento de refundação do que designam por
Direita. Entre eles encontram-se os que há uns anos negociaram as PPP com os
grupos privados de saúde. Os tais grupos que, como se verifica agora, são
incapazes de contribuírem para combater na guerra contra a epidemia. Acresce —
para a anedota do Esteves ser completa — que algumas das parcerias foram estabelecidas
com o Partido Comunista Chinês (além da EDP, é caso do antigo Espírito Santo
Saúde, agora Luz), criador do dito vírus do Partido, nas palavras do autor!
Será pois estúpido dar algum
crédito a troca-tintas desta espécie do Esteves e patrocinadores. Deles se dirá
como diziam as tropas das frentes de batalha da artilharia: Deus nos salve
deles (e da nossa artilharia), porque do inimigo nos salvamos nós!
Havemos de nos livrar primeiro do
dito vírus do Partido Comunista Chinês do que destes vendedores de banha de
cobra! Um mal de cada vez.

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