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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Marcelo e o sangue:

O que Marcelo está a exibir ao se querer substituir ao Parlamento e ao Governo a respeito da nomeação de familiares para a Casa Civil não é do foro ditatorial, sequer de um secreto modelo presidencialista que fintasse a Constituição. A chave hermenêutica do episódio está no intento de ir até ao sexto grau na exclusão de familiares. A proposta começa por parecer o que é, absurda e sintoma de grave destrambelhamento dadas as suas responsabilidades no Estado e no regime. Passado um bocado, faz-se luz. Marcelo está-se a marimbar se o Governo ou o Parlamento lhe fazem a vontade, se lhe seguem o exemplo. A mensagem já passou, a comunicação social espalhou pelas cidades e lugarejos que por ele era tudo corrido com o anátema do sangue. Sangue impuro, ctónico, inaceitável nos seres angélicos que o bom povo adora.
Este homem é o mesmo que, como rei do comentário político em Portugal, foi sempre cúmplice do anterior inquilino do Palácio de Belém. Cavaco podia fazer o que lhe desse na gana, de facto promovendo o irregular funcionamento das instituições e pervertendo actos eleitorais, que para o Marcelo-estrela-da-TV-ao-serviço-da-direita não só estava tudo bem como era isso mesmo que Cavaco devia ser. Em mais do que uma ocasião expôs a doutrina: um Governo, ou um partido, que ataque o Presidente da República irá inevitavelmente perder o apoio do eleitorado – o que permite à Presidência da República exercer um poder político onde vale tudo. Assim foi com Cavaco, desde a Inventona das Escutas ao boicote do PEC IV, passando pela aliança com o PSD de Ferreira Leite e o discurso da tomada de posse do 2º mandato, só para recordar momentos historicamente decisivos no País.
Quando Marcelo aproveitou um ano de seca extrema e fogos com muitas vítimas para obrigar o Governo a demitir uma ministra, e a sofrer calado uma humilhação política oportunista e gratuita, estava a repetir o mesmo abuso de poder que tinha sancionado em Cavaco. Na ocasião, jurou que a problemática dos fogos se tornaria o critério mais importante para a avaliação do Governo e para decidir da sua própria candidatura ao segundo mandato. Um ano e tal depois, embriagado de catolicismo juvenil para as massas e televisões, já não se lembrava do que tinha feito e dito. O critério para a recandidatura era agora a sua saúde e o seu desejo de servir de cicerone a um papa. Qual é o padrão? É o mesmo que seguiu durante toda a sua carreira de bailarino e bufão da oligarquia, divertir-se com uma República que conheceu por dentro quando ainda era da outra senhora. Uma República que renasceu de uma revolução sem sangue para que o sangue antigo continuasse a circular e a reproduzir-se.
Até aos incêndios de 2017 e ao desaparecimento do material militar em Tancos, Marcelo Rebelo de Sousa simulou na perfeição ser o estadista certo no tempo certo. O País precisava do seu papel unificador para ser resgatado do resgate para que tinha sido levado pela direita do poder pelo poder em 2011. Ao aparecer a reconhecer o óbvio, que o Governo socialista estava a seguir por um caminho de devolução de rendimentos e direitos aos mais desfavorecidos e à classe média, Marcelo contribuiu para a estabilidade social e para o crescimento económico, serviu o interesse social. A partir do momento em que passou a querer montar a sua recandidatura, optou por entrar no jogo partidário e, concomitantemente, ficou refém do populismo mediático que imagina conseguir canalizar em seu favor.
Vir alegar que os casos de relações de parentesco na esfera do Governo e do Estado levantados pelo PSD e explorados com sensacionalismo pelos impérios mediáticos da direita obrigam a nova legislação por causa de um suposto “juízo da opinião pública portuguesa mais exigente”, quando a dinâmica desta questão é estritamente eleitoralista, obriga a uma de duas conclusões: (i) ou Marcelo é um inveterado hipócrita, cujo cinismo se deve supor ilimitado, mas controla a estratégia com mão de mestre; (ii) ou Marcelo é hipócrita e cínico por formação e destino, mas ainda mais forte é o seu pavor de não ser amado, o que o leva para um esta do de extrema fragilidade emocional e seu cortejo de erros cognitivos onde o populismo de ocasião e gozo lhe condiciona a táctica.

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