Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Dia das mentiras:

Ainda recordo neste dia de dizer: pai deixou – neste tempo tratávamos os nossos pais por “você” – cair o lenço! Ele tão depressa, como a frase dita, olhava para o chão, tanto para a sua frente para trás e para os lados a ver se o avistava. Eu sabia que era impossível porque o meu pai não o tinha deixado cair. Aliás, até julgo que não o devia usar porque naquele tempo era artigo de luxo, que é o mesmo que dizer, de gente rica. Não por serem mais higiénicos que os que não o tinham. Mas estava sentenciado: o lenço para a gente do dinheiro a fralda da camisa ou um farrapo velho para os mais pobres. Quem me lê julga que estou a delirar mas era esta a triste realidade portuguesa.
Mas como ia dizendo e para não me desviar do que me trouxe a terreiro, com a atrapalhação da minha chamada de atenção, o meu pai até se esquecia que não usava lenço. Isso julgava eu!
Só que com o tempo vemos os actores que os nossos pais eram. Para nos alegrar correspondiam à nossa intenção. Mas sabia que o estava a enganar. Por isso ainda hoje eu ser a favor do dia dos enganos e não da mentira. Engano é coisa banal. Mentira é coisa grave.
Hoje, tal como ontem fiz com os meus filhos, faço-o com os meus netos quando me dizem: avô deixaste cair o lenço. Faço os mesmos movimentos que o meu pai e vejo os meus netos rir a bom rir.
Só que hoje há duas realidades.Os usar lenço e os meus netos me tratar por tu.

Sem comentários:

Enviar um comentário