sexta-feira, 30 de junho de 2017

Eu apagava:

Um amigo, bom e experimentado repórter, disse-me, um dia: "Nunca estendas o microfone a um futebolista que sai do campo para ser substituído." Como raramente estendi um microfone e todos os jogos que vi foram quase sempre sentado, ora em bancada ora em sofá, percebi que o velho jornalista estava a debitar um conselho geral. Ele ainda me disse: "Depois de se andar a correr 70 minutos o cérebro está demasiado oxigenado, ou de menos..." Aquela dúvida entre duas situações opostas - vinda dele, que mais depressa dissertaria com exatidão sobre isquemia cerebral, e assim - confirmou-me que só aparentemente estávamos a falar de as substituições no futebol serem vividas com a cabeça a não funcionar como deve ser... O meu amigo falava duma lei universal para quem pergunta com a vontade de ouvir uma resposta autêntica.

Autêntica, isto é, dada por alguém sabendo o que está a dizer e em condições de saber que, depois de dita para um jornalista, a resposta ganha asas e atinge ouvidos mal-intencionados que eu sei lá. Erra o leitor que pensa que esta minha crónica é sobre assuntos de jornalismo, normas e conselhos para uma corporação. Também é, mas o sujeito da crónica é o abusado pelo jornalista. O indivíduo a quem se aponta um microfone, sem ser prevenido de que aquilo dispara.

Quem diz futebolista, diz peixeira. Mais abaixo, publico um discurso recente de uma mulher para jornalista, testemunho dado com cara e nome. Não são imagens como as do ex-ministro Miguel Macedo, exposto durante um interrogatório judicial, falando para uma câmara que ele pensava ao serviço da lei mas acabando por fornecer um esgoto. Essas imagens, a do ex-ministro, são fruto de duas anormalidades: a irresponsabilidade judicial e a canalhice de jornalistas. Essas, embora tão feias, de certo modo tranquilizam-nos, porque são anomalias, desvios. Mas, o outro, o discurso com que a peixeira foi apanhada na curva, é mais grave. Porque foi publicado e transmitido, em televisão e site de jornal, sem intenção de a ferir e sem se enganar a senhora com manhas. Coisa aparentemente e, quase de certeza, com vontade de ser limpa. Tanto que poderia ter sido publicada e transmitida por qualquer outro jornal português e televisão. Neste meu jornal também. E é esse o ponto: banalizou-se não nos interrogarmos sobre o que estamos a falar quando estamos a falar.

A comerciante e a sua carrinha de distribuição de peixe e fruta passaram pela estrada N-236 naquele dia em que houve ali tantas mortes. Dias depois, sempre a trabalhar, voltou ao local e falou para a câmara e para os microfones. A situação não configura o exemplo do futebolista apanhado com os bofes de fora, com mais ou menos oxigénio no cérebro. Mas, eu já o disse, aquele exemplo do meu amigo não era só para a vizinhança das quatro linhas do relvado. A senhora testemunha de forma emocionada, soluça por vezes. Não, ela não estava a falar de postas de pescada, mas de coisa sua, funda. E disse o que não devia.

Ela disse, cara filmada, nome na legenda, com a carrinha que há de continuar a parar entre os seus amigos e clientes, narrando como conduziu na estrada entre o fumo e o fogo. Disse: "Foi então quando entrei naquela fúria. A partir daí foi tudo quanto eu encontrava pela frente para me tentar salvar. Lembro-me de bater em vários carros a arder [palavras embargadas, soluço], não sei se os acabei de matar. Mas se os acabei de matar peço... peço desculpa porque ali era salve-se quem pudesse."

O vídeo, no jornal onde foi publicado, puxou para título o discurso direto, entre aspas, assim: "Se os acabei de matar peço desculpa, mas ali era o salve-se quem puder!" É quase exatamente o que a senhora disse, com uma emenda talvez gramaticalmente melhor. Em vez de "ali era salve-se quem pudesse", que ela disse, escreveu-se "ali era o salve-se quem puder." Interessante o cuidado na formulação gramatical quando se negligenciou, ou pior, deu-se demasiada atenção - até se chamou para título - ao que foi dito.

A senhora disse o que quis dizer, certamente sem ter sido coagida e sem ter sido endrominada para o dizer. Não é esse o ponto. E falou dias depois do acontecimento, sem estar no calor da ação, é certo. Mas não falava só para as amigas e clientes, algumas que até sabem quanto ela foi valente e podiam recolher-lhe as palavras, mesmo as perigosas, com a sabedoria que se reserva à conversa entre próximos.

Não, ela não falava para os seus. Ela estava a falar a um microfone e uma câmara - para um palavrão, multimedia - que serviriam de extraordinário altifalante ao que ela dizia. Sobretudo o indizível. A mulher que falava estava ciente dessa dimensão? E das traduções todas que as suas palavras teriam? E das palavras que mais especialmente seriam escolhidas pelos ouvidos estranhos (e para título, pelos jornalistas)? Saberia ela que com os aparelhos que lhe puseram à frente, às palavras o vento não leva, duram mesmo depois de se esquecerem os acontecimentos que as motivaram?

Enfim, a senhora interrogou-se com a prudência devida? Sabia de tudo, como todas as nuances com que seria ouvida, do que estava a falar quando estava a falar? Duvido. Mas os jornalistas sabiam. Todos, na cadeia que levou da recolha das palavras até à publicação e difusão, sabiam do extraordinário testemunho que aquilo era.


E, sabendo, deviam, vou dizer uma iconoclastia para o negócio: deviam apagar. Eu apagava as palavras da senhora. O meu critério é simples: se fosse um dos meus a dizer aquilo, eu apagava.

(Um é tudo)

Ferreira Fernandes no DN

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