segunda-feira, 19 de junho de 2017

Especialista explica tragédia de Pedrogão Grande com combinação fatal de fatores:

Tudo o que podia correr mal, correu mal.
A tragédia de Pedrógão Grande resulta de uma combinação de fatores que dificilmente poderiam ser contrariados pela ação humana.
A PJ determinou que o fogo se deve à tempestade seca que se abateu sobre a região e identificou até o foco original do incêndio, que será uma árvore atingida por um raio.
A forma peculiar como o raio destrói a árvore atingida permite aos especialistas concluir que é essa a origem do fogo, sem grandes margens para dúvida.
Mas é frequente haver mais do que uma ocorrência.
"Neste tipo de trovoadas, é normal que caia mais do que um raio, em locais diferente, provocando diferentes focos de incêndio", explica o investigador, que prefere não ser identificado.
Mesmo admitindo que haja um só ponto inicial do incêndio, o vento, as condições do terreno e a orografia explicam a propagação rápida.
"A projeção de material incandescente é brutal. Uma folha de eucalipto, por exemplo, pode voar mais de dois quilómetros enquanto está a arder", explica o especialista.
Ou seja o calor intenso e o vento que se faziam sentir fez com que o fogo se propagasse rapidamente a uma vasta área, criando uma perigosa bacia de fogo e fumo. Fumo letal A estrada EN 236 está rodeada de floresta.
Nesta altura do ano, explica, a floresta ainda tem muita humidade. "As imagens mostram um fumo esbranquiçado a sair da floresta, ao contrário dos fogos de verão, em que o fumo é muito mais negro. Este fumo cria um 'nevoeiro' denso e é muito tóxico".
Dezenas de famílias tiveram de fugir para não morrerem
Os condutores que seguiam na estrada ter-se-ão deparado com esta parede de nevoeiro branco. A estrada até poderia já estar cortada, mas entre os dois pontos em que as autoridades vedam o acesso há sempre quem fique no meio.
Os que já circulavam antes da estrada ser fechada e os que ali estavam apeados e tentaram fugir para a estrada principal com os seus carros ao sentir o fogo a aproximar.
"Perante ao nevoeiro, as pessoas não sabem se o fogo está próximo e a tendência é avançar. Mas depois as pessoas perdem totalmente a visibilidade, desorientam-se e ficam encurraladas.
O fumo é extremamente tóxico, as pessoas desfalecem, têm dificuldades respiratórias, perdem o discernimento". Sem noção do sítio por onde entraram na estrada, a fuga torna-se quase impossível.
O fumo terá matado antes das chamas.
"Acredito que as vítimas ficaram inconscientes.
Mesmo as que foram encontradas carbonizadas, só foram queimadas muito depois de perderem os sentidos e estariam já mortas por causa da inalação de fumos".
Sinal disto é a disposição dos cadáveres. "Quando alguém é atingido pelas chamas, o corpo é encontrado com os braços em posição defensiva, como se fosse um 'boxeur' a tentar apagar o fogo com as mãos.
Se os corpos são encontrados com os braços caídos ao longo do corpo, isto quer dizer que estariam inconscientes quando as chamas chegaram".

O especialista não tem memória de uma tragédia assim, nem em Portugal nem no estrangeiro. Mas considera que dificilmente as autoridades poderiam ter feito algo de diferente. "Foi tudo muito rápido, não houve tempo para as pessoas serem avisadas e as vítimas não tiveram hipóteses de fuga".

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