segunda-feira, 29 de maio de 2017

Quem és tu, Centeno?

Já escrevi que Mário Centeno é pouco hábil politicamente. E também já opinei sobre a habilidade política de António Costa. Mantenho as duas teses, mas nada disto define, por inteiro, estas duas personagens. Explico porquê.

À primeira vista, ninguém leva Mário Centeno muito a sério. O jeito meio desengonçado, o discurso pouco fluido, as tiradas a despropósito e os erros na gestão da comunicação fizeram do atual ministro das Finanças uma espécie de bobo da corte, subestimado pela oposição e pela própria comunicação social. Mea culpa: eu fui um deles. Não duvidei, propriamente, das capacidades técnicas do economista, mas duvidei - e muito - da capacidade que Centeno teria para jogar o jogo político a que estava obrigado, interna e externamente. Centeno surpreendeu. Surpreendeu-me.

Não, Mário Centeno não é o Cristiano Ronaldo do Eurogrupo. E, assumindo que a frase do ministro das Finanças alemão não era ironia da mais reles (como só Schäuble consegue ter), só pode ser ignorância futebolística.

Cristiano Ronaldo é o melhor do mundo porque é um jogador completo. Dribla bem, executa ainda melhor, corre para ajudar a defesa e, se for preciso, joga lesionado porque não gosta de perder nem a feijões. O melhor do mundo é um criativo, um visionário que antecipa as jogadas e troca as voltas aos adversários. O melhor do mundo joga bonito, levanta estádios, encanta multidões. Ora, Mário Centeno, como ministro das Finanças, está longe de ser tudo isto. Se Mário Centeno fosse um jogador de futebol, era daqueles mal-amados, de quem os adeptos desdenham, mas que cumprem um papel absolutamente fundamental na equipa. Porque conquistou a pulso o respeito do resto do plantel, porque contrariou as piores expectativas dos colegas e soube aproveitar as oportunidades que o treinador lhe deu.

Mário Centeno é o Amaral do Benfica na década de 90. Um jogador desengonçado, de baixa estatura, por quem ninguém dava nada até ao dia em que o viram jogar pela primeira vez. O Amaral era um jogador raçudo, que não sabia o significado da palavra desistir e estava apostado em contrariar todas as expectativas. Quem desdenhou dele, rapidamente mudou de ideias. Era o melhor jogador do mundo? Não. Marcou muitos golos? Não. Ganhou algum título pelo Benfica? Também não. Mas não deve haver adepto com memória dessa época que não se lembre dele. O Amaral era o jogador que nunca desistia, quando a equipa já tinha baixado os braços e dado descanso às pernas. Era o homem que estava sempre disposto a contrariar as expectativas. O bem-disposto, que jogava futebol por prazer, que acreditava no que fazia e que, rapidamente, se tornou a alma da equipa.

Schäuble, provavelmente, nunca ouviu falar do Amaral e a comparação que fez entre Centeno e Ronaldo também não é para ser levada a sério. Mas é pena que o ministro das Finanças alemão não tenha compreendido, até hoje, que Mário Centeno foi um "jogador" inteligente, quer na forma como geriu as contas públicas portuguesas quer na forma como foi gerindo as recomendações, tantas vezes absurdas, que vinham de Bruxelas.

Não o fez sozinho, como Cristiano Ronaldo também não chegou a melhor do mundo sozinho. Encontrou algum trabalho feito, o contexto internacional deu uma ajuda, mas contou, sobretudo, com um "treinador", esse sim, muito hábil politicamente. António Costa geriu o que parecia impossível de gerir. Jogou o jogo a que Scolari chamaria de "mata-mata" e nunca recuou. Nem podia.


O "campeonato" ainda vai a meio e ainda tem muitas "jornadas" pela frente. A única coisa que podemos desejar é que, ao contrário do Amaral no Benfica, que nunca ganhou nada, apesar de tudo o que deu à equipa, Portugal consiga ganhar de facto. Se for à Alemanha, tanto melhor.

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