domingo, 12 de março de 2017

José Sócrates: o triunfo da força sobre a razão?

A dinâmica cinética do fiel da balança. De que lado e em que prato está a força.

Eu espero que o Senhor Presidente da República, o Senhor Primeiro Ministro, o Presidente do Tribunal Constitucional, a Ministra da Justiça, e os deputados da Nação tenham assistido à entrevista de Judite de Sousa a João Araújo, ontem na TVI.
Judite de Sousa continua a ser uma das jornalistas de referência da TVI, criteriosamente escolhida para acompanhar nos momentos decisivos de mediatização a Operação Marquês. Foi Judite de Sousa quem entrevistou recentemente José Sócrates e ontem João Araújo.
A TVI é um dos assistentes da acusação constituídos no âmbito do processo. Não sejamos ingénuos. Aqui não existem duas componentes da acusação separadas por uma muralha. A componente ou extensão mediática do processo está solidamente coordenada pela e ancorada na componente ou extensão judicial, coordenadas no tempo e no espaço e condicionando-se mutuamente. Devemos assumir como pressuposto que, através de várias vias, mais ou menos institucionais, a componente judicial do processo vigia e determina a componente mediática e vice versa. As violações do segredo de justiça, se mais não fora, são a cabal demonstração desta perfeita coordenação e cumplicidade.
As entrevistas de Judite de Sousa são com toda a certeza exaustivamente preparadas, em sede de concertação com a componente judicial do processo. Toda a mímica de Judite de Sousa é de resto criteriosamente estudada para induzir a percepção, real ou imaginária, de que a jornalista está na posse e no uso de elementos do processo que a defesa desconhece. Judite de Sousa soube tirar partido, no passo que pensou decisivo na enterevista, do facto de João Araújo desconhecer o teor de cerca de dez volumes do processo, onde estaria sediada a matéria decisiva, para efeitos da acusação próxima recente.
É certo que Judite de Sousa se deixou perturbar visivelmente pela determinação e uma dada serenidade ingénua de João Araújo. Mas tinha preparada a pergunta suficiente e necessária para o caso, para a eventualidade de as coisas não correrem de feição:
''Mas neste caso a força está de que lado?''

Ora vejamos. João Araújo contornou a questão com um certo espírito e com perspicácia, após uma breve expressão de espanto. ''A força?!!!''. Assumiu que a força, aquela força que continua a dar ânimo a Judite de Sousa, seria a razão e que, sendo a razão assistia a José Sócrates. Mas a pergunta não foi feita a João Araújo, que sabe muito bem de que lado está aquela força que Judite de Sousa alegava, para pacificar a má consciência de milhões de ouvintes da TVI, que esperam que, em última instância, a força intervenha nos domínios que a razão não alcança.
A pergunta foi feita para que a audiência da TVI a ouvisse. Não como uma pergunta, mas como uma declaração, um quase ultimato. Na sequência que lhe deu contexto, em resposta à determinação e bonomia de João Araújo, a pergunta insinuava um pressuposto. Suponhamos então que tu tens razão, meu menino. Mas a força está de que lado?  Este era o sentido da pergunta, como sinal transmitido para os milhões de espectadores da TVI.
Eu insisto e insistirei até às instâncias derradeiras que esta inesperada alusão de Judite de Sousa à força não pode ter sido iniciativa sua e que alguém lhe ordenou que transmitisse à audiência da TVI, através de João Araújo, que a força estava com os acusadores de José Sócrates. Que o recurso à força garantiria, em insância derradeira e conclusiva, o imperativo almejo dos portugueses. Verem José Sócrates condenado.
Se assim não foi que se investigue até às consequências derradeiras em que condições, Judite de Sousa, uma das mais credenciadas jornalistas da TVI, alega o uso da força por parte dos acusadores contra José Sócrates.Recai sobre os promotores da Operação Marquês a suspeita, veiculada por uma jornalista credenciada, de que, em desespero, ou sem ele, por mera prudência talvez, usarão da força para levar a cabo os seus intentos.
O Senhor Presidente da Reública, o Senhor Primeiro Ministro, o Presidente do Tribunal Constitucional, a Senhora Ministra da Justiça, os senhores deputados da nação não podem continuar a fazer de contas que não entendem os sinais claros que o ''natural curso'' das investigações e diligências no âmbito da Operação Marquês nos tem transmitido. Não podem continuar a fazer de contas de que são mal entendidos.
Sob pena de que nos convençamos de que também eles estão condicionados pela força. Ou de que partilham os benefícios e honras políticas da força.
São sintomas demasiado óbvios de degradação da República.

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