segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O dia em que os jornais não ligaram ao que disse a Moody’s:

O mundo não para de nos surpreender. Nos últimos anos qualquer decisão das agências de rating fazia parangonas nos nossos jornais e dava azo a dezenas ou centenas de comentários e análises escritas ou orais, nos jornais, nas rádios, nas televisões ou nas redes sociais. Desta vez, a decisão da Moody’s, anunciada no dia 25 de fevereiro, mereceu um silêncio ensurdecedor quase total por parte da comunicação social portuguesa. O que se terá passado? 

Ora o que se terá passado? É que desta vez a Moody’s, em vez de descer mais uma vez o rating da dívida pública portuguesa ou de dizer que estamos de novo a caminho de 2008, ou que o país está a caminho do inferno de Dante, proferiu um raríssimo e completamente inesperado elogio ao atual Governo que, como se sabe, é perigosamente do PS e ainda mais perigosamente apoiado por BE e PCP. Kathrin Muehlbronner, vice-presidente da agência, disse que o OE 2016 “ilustra a capacidade e a vontade do governo para reverter o rumo e fixar um caminho orçamental mais realista do que tinha sido apresentado no seu primeiro rascunho do orçamento, no início do fevereiro” e que “também elimina o risco de eleições antecipadas”. 

Perante isto, o que escreveram os jornais económicos? Nem o “Jornal de Negócios” nem o “Diário Económico” do dia 26 fazem qualquer chamada para o tema. Lá dentro, o “Jornal de Negócios” dá uma página (a 24) à Amundi, que “afasta descidas do rating em Portugal” e pouco mais que uma breve à decisão da agência, com o título “Aprovação do OE é positiva, diz a Moody’s”. Espantosamente, o “Diário Económico”, na sua versão em papel, nem sequer informa os seus leitores sobre esta matéria (embora no on-line tenha dado conta do tema). 

Igualmente espantoso é que nenhum dos mais atentos analistas políticos dos dois jornais tenha tocado, nem ao de leve, no assunto – e que nenhum editorial lhe tenha sido dedicado. Só hoje, segunda-feira, Fernando Sobral escreve sobre o tema na última página do “Jornal de Negócios”, na sua habitual coluna de opinião “O pulo do gato”. 

Não é também de estranhar que o “Correio da Manhã”, o “Sol” e o jornal “i” tenham passado pelo tema como por vinha vindimada: nem notícia, nem editorial, nem manchete, nem artigo de opinião. Zero. Nada. Coisa sem relevo nem importância que nem uma breve mereceu. O Observador deu a notícia mas ela também não mereceu a atenção de um único dos inúmeros colunistas do site financiado por empresários privados. Nós mesmo, aqui no Expresso, demos com relevo no online a notícia e a reação de Passos Coelho, mas já não a divulgámos no papel, embora Pedro Adão e Silva e Daniel Oliveira a tenham aflorado nos seus textos de opinião. 

Eis que temos de ir até ao “Diário de Notícias” para encontrar não só um editorial, escrito pelo subdiretor Nuno Saraiva, com o título “A Moody’s e o Orçamento”, e mais à frente, uma página dedicada ao tema, com foto de António Costa e intitulado “Elogio raro: Moody’s gostou do Orçamento e Governo aplaude”. 

Nas televisões, a notícia terá passado mas desta vez, ao contrário do que aconteceu quando a agência canadiana DBRS poderia ter descido o rating da dívida portuguesa, ninguém tomou a iniciativa de ligar para a Moody’s para que alguém esclarecesse melhor esta surpreendente posição da agência. E nenhum dos opinadores de peso foi à pantalha perorar sobre o evento. 

Não tiremos, no entanto, conclusões apressadas. Só pode ter sido porque outros temas de relevo se impuseram, nomeadamente um relatório da Comissão Europeia, que mereceu chamada de capa do “Diário Económico”, com o título “Portugal arrisca processo por recuar nas reformas”. Ou o despedimento coletivo no Novo Banco, coisa que, quando a instituição nasceu, o governador do Banco de Portugal nos tinha garantido que nunca aconteceria. Ou qualquer outro grande assunto. 

Não sei porquê mas fico com a sensação que sobre o mesmo tema há dois pesos e duas medidas na comunicação social portuguesa. E também não sei porquê vem-me à memória a pergunta de Luiz Felipe Scolari: “e o burro sou eu?” (onde a palavra “burro” deve ser substituída por um qualificativo ideológico-económico…). Aguardemos pelas futuras posições das outras agências de rating, Standard & Poor’s, Fitch e DBRS. Pode ser que sejam muito críticas para o Governo, o orçamento e o país. Nessa altura, tenho a certeza que tudo voltará à normalidade na comunicação social portuguesa e tais análises não passarão despercebidas, como agora infelizmente aconteceu.

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