quarta-feira, 25 de junho de 2014

O meu antigo lugar:

Era feio e ermo. Mesmo assim era onde vivia. Para ali fui viver em mil novecentos e cinquenta e quatro mais precisamente no mês de Junho. Digo Junho porque no primeiro dia que ali cheguei na entrada da minha ilha (rua) ter uma cascata ali exposta. Era uma ilha com cinco inquilinos. O senhorio era a família Brito da drogaria que existia na rua do Comércio com o mesmo nome.
Todos os vizinhos procuravam se entender para haver harmonia entre eles. As casas eram pequenas mas naquele tempo tudo era pequeno. A cozinha não dava para comermos todos ao mesmo tempo. A não ser uns sentados à mesa, que não era mesa, mas sim uma masseira, os outros no cimento do chão.
A masseira tinha este nome porque tinha duas funções: servir de mesa de refeições, tinha um tampo que dava para abrir, que depois de aberto, tinha um vão onde as mulheres - regra geral eram elas - amassavam a farinha para levar ao forno e dali aparecia a célebre broa de pão caseira. Parávamos ali pouco tempo porque o espaço não dava para mais. Tinha dois quartos e uma sala mas também de reduzidas dimensões. Mas era a minha casa e o lugar em que vivi vinte e um anos.
Ainda hoje guardo boas recordações de ambos. Assim como dos vizinhos, a maioria já não está entre nós. A família Sousa da Tipografia, depois na mesma casa, Zeca “Rabão”, a seguir Alberto “Mirra” e por fim Zé “Mula”. Na outra casa a seguir, pois elas uniam-se em quadrado, tendo duas saídas - uma para os quintais, cortes e retretes, a outra dava saída para o exterior - contando pela esquerda de quem entra na dita ilha, Maximino “Frita”, ou seja a minha família, fomos para a casa onde antes viveu a família “Malga”. Na outra a família Juca “Careca” que quando para ali fomos já ali morava há anos. Esta família para mim era a minha segunda família. Dávamo-nos lindamente. Ainda recordo as pombas de papo que o senhor Juca tinha. Estavam bem domesticadas que até vinham à sua palma da mão buscar alimento. A seguir a família do António “Coroa” que depois emigrou para África. Depois dele os pais do Chico do “Parrilhada” que passado tempos foram viver para Chaves. Assim, após o matrimónio do António “Carvalho” com a Bina “Pedra”, ali deram entrada como inquilinos. Fez casa e vagou esta que a partir daí os meus pais arrendaram dado o número de filhos e a escassez de aposentos da outra casa. Assim ficamos com duas moradias. Na outra, que perfaz as cinco casas, vivia a senhora Marquinhas viúva do pai do senhor Manuel “da Bouça” dono daqueles terrenos, depois vendidos à família Brito.
Ali havia um pouco de tudo. Nos quintais onde os seus proprietários cultivavam algumas culturas para o dia-a-dia ou mesmo para vender ou dar. Neles existia as chamadas estrumeiras. Para quem não saiba eram os excrementos fisiológicos do nosso corpo que juntamente com mato que se ia ao monte cortar tudo junto fazia-se o estrume que fertilizava os quintais e campos de lavoura. No lugar da Bouça havia umas quantas estrumeiras. Tantas, quantos moradores. Também havia os campos de lavoura.
De manhã cedo regra geral ouvia-se o berrar do gado, o chilrar dos carros de bois e o barulho do arado a sulcar a terra além dos brados dos agricultores ameaçando o gado bovino com a sua voz grave e o aguilhão sempre afiado. Como recordo esses tempos. E… que saudades dele.
Dos dias da cozedura do pão em que a minha mãe me mandava a casa do agricultor mais próximo pedir bosta fresquinha para tapar o forno. Era com este excremento que se tapava as fendas entre a tampa e orifício do forno. Coisas que se contar a esta juventude não acreditam.
Também lembro os dias ou manhãs, quando não tinha aulas, ia para casa do senhor Armando ajudar na lavoura. Tinha filhos de tenra idade e precisava de alguém à frente da junta de bois. Assim lá ia o Manel todo prazenteiro à frente da dita junta de bois. E dizia: anda russo! Acompanha amarelo! Era assim que se chamava a junta de bois.
Assim a minha contribuição dava para a esposa do senhor Armando, dona Lourdes, cegar erva e fazer o almoço ou a janta. Depois esperava pelo meio-dia ou tarde para jantar aquele arroz com feijão entremeado com chouriça e umas sardinhas fritas que a dona Lourdes ia confeccionar. Que farnel! E que saboroso! Ou seria da fome. Era das duas coisas. É que em casa dos lavradores podia não haver dinheiro mas não faltava géneros alimentícios.
Acabado aquele dia esperava por outro. Hoje quando passo no lugar da Bouça, ou seja, na rua da Bouça, vem-me à memória estas recordações. Sei que o tempo não se compadece com nostalgias.
Mas sabe-me bem recordar esses momentos. Assim hoje ali não há campos de lavoura, quintais para cultivar e muito menos estrumeiras. Esses terrenos deram lugar à construção civil. Por isso o meu admirar da falta de cheiro a estrume e bosta de boi.
E como intitulo: “O meu antigo lugar” deixou de ser lugar para ser rua da Bouça.

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