Houve o deslumbrante, comovente até, elogio de Teresa Leal Coelho ao
Tribunal Constitucional, em forma de milagre das rosas: a maioria confessando
que quis e acreditou nomear comissários políticos descobrindo, atónita e
vingativa, que lhe saíram juízes do regaço. Houve a reação vagal de quem há
muito vagou o lugar e que, 20 minutos de ausência depois, achou, apesar (por
causa?) dos diretos de todas as TV, não dever uma palavra, uma justificação, um
módico de boa educação, ao País no dia dele - decerto crendo que, neste caso
como nos outros, se fingir que não se passou nada, é como se nada se tivesse
passado.
Tanta coisa nesta semana. Mas não vou, como o desmaiado vacante,
retomar o discurso como se não tivesse caído. Os nomes das pessoas que esta
semana receberam notificação de despedimento no grupo editorial do DN ocupariam
esta coluna toda - pensei usá-la assim. Mas seria uma outra forma de não me
obrigar a falar sobre isso. De guardar o silêncio envergonhado, embaraçado, que
os jornalistas guardam sobre as suas tragédias, nós que corremos a
"cobrir" as dos outros, os despedimentos dos outros, as lágrimas,
desalento e desespero dos outros, para fazer delas posto de espreita sobre o
mundo.
Somos isso, temos essa missão: espécie de guarda avançada, cega, lenta,
à procura de sinais. De vez em quando, os sinais vêm ter connosco.
Abalroam-nos. Inevitável, diz a gestão deste grupo: que é "a única
forma". Posso vir a acreditar nisso. Mas preciso que me expliquem. Que me
demonstrem. Que me oiçam; quem sabe tenho, temos, ideias para ajudar a resolver
o problema. A lei, esse tão infrequentável luxo nos tempos que correm, diz que
os jornalistas "têm o direito de participar na orientação editorial do
órgão de comunicação social para que trabalhem, bem como a pronunciar-se sobre
todos os aspectos que digam respeito à sua actividade profissional". A lei
diz isto porque reconhece aos jornalistas uma natureza específica, especial:
somos fundamentais para a democracia. Mas poderemos sê-lo, com o que isso
implica de independência, de segurança, de intrepidez e resistência, se formos
tratados, nós que somos supostos averiguar sobre tudo, investigar sobre tudo,
ter uma perspetiva sobre tudo, uma narrativa sobre tudo, afrontar tudo e todos,
como se não tivéssemos capacidade de perceber o que nos acontece e porquê,
riscar uma palavra sequer sobre isso?
E, o que é mais, se nos deixarmos assim tratar. Será assim tão
impossivelmente heróico cumprir os nossos deveres e exigir os nossos direitos?
Com que cara pediremos amanhã a alguém que dê a cara no nosso jornal, se não
damos a cara por ele, pelo jornalismo, por nós? Com que cara continuaremos como
se nada se tivesse passado, à espera de cair de vez?
FERNANDA CÂNCIO
Hoje no DN
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