Análise semântica da saída limpa
Eu desde que vi os juros a subir que nem carrascos porque sim e os vi a
descer com gentileza porque sim, decidi que não. Não mando bitaites sobre
finanças e não ouço os sábios. Já sei o que já sabia, que sou nulo na matéria,
mas sei também agora, de experiência feita, que não estou sozinho. Quando vou
ao casino também não me ponho a discutir com o croupier por ter saído cinco
vezes seguidas o preto. Encolho os ombros. Ou melhor, não os frequento porque
fico sempre a perder. Infelizmente, pelos vistos, nem de todos os casinos posso
escapar. Saída limpa? Ok. Se o primeiro-ministro o diz: "Depois de uma
profunda ponderação de todos os prós e contras, concluímos que esta é a escolha
certa na altura certa", Ok. Embora, depois de tanta ponderação e medições,
se aceito a "escolha certa" - foi aquela, limpa, mas, como já disse,
se fosse a cautelar também aceitava -, se entendo a escolha, faz-me espécie a
"altura certa". Havia alternativa ao tempo de saída? Podíamos sair
noutra altura? Há um mês? Daqui a um ano e 23 dias? E os nossos parceiros
europeus - que, segundo o nosso primeiro-ministro, apoiariam a nossa escolha
"de forma inequívoca fosse qual fosse a opção que viéssemos a tomar"
- se disséssemos "eh, pá, afinal a malta não sai!", também seriam
apoiantes e inequívocos? Desculpem-me a agarrar-me a deslizes de linguagem mas
conversa é a única coisa palpável nesta história. Sobre estados de alma, como
finanças, não perco tempo.
FERREIRA FERNANDES
Hoje no DN
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