Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Um dia de cada vez:

A história mostra que toda a grandeza, seja dos indivíduos ou das nações, só se consegue quando se olha para o tempo longo, como alguém que contempla um extenso vale a partir de uma alta montanha. A empresa dos Descobrimentos só foi possível pela coerência das políticas que vão de Ceuta à chegada de Gama à Índia. Para que o "Estado social" escandinavo ou a modernização sul-coreana tivessem ocorrido foram precisas décadas de persistência política. Os resultados positivos no SNS português implicaram 40 anos de continuidade. Esse é o método da estratégia, que implica visão e firmeza no rumo. O método de quem aprende a criar e a contar com um tempo previsível. Pelo contrário, "a saída limpa", anunciada ontem pelo primeiro-ministro - num estilo épico inapropriado -, representa a vitória do tempo mínimo. O triunfo da tática parcelar e fragmentar. A nossa "saída limpa" não espelha a nossa liberdade reconquistada, mas o nosso abandono por parte dos países que, connosco, formam o corpo da zona euro, onde deveria reinar a solidariedade, mas impera um egoísmo vesgo e malsão. Ficamos, para já, entregues ao "programa cautelar" endógeno e improvisado de uma "almofada financeira", que nos custa milhões, mesmo sem ser usada, sobretudo para não ser usada. Ficamos à mercê de forças que não controlamos, sejam elas o humor dos mercados, as decisões dos bancos centrais mundiais, a incerteza sobre o rebentar das bolhas chinesas (do crédito e do imobiliário), a sorte das armas na guerra civil ucraniana. Como poderemos esperar que nesse solo estéril as sementes da confiança, do investimento e do desenvolvimento possam crescer? A zona euro transformou-se numa planura desértica. Sem estadistas visionários que escalem montanhas para vislumbrar o melhor rumo para o bem comum de todos os europeus.
VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
Hoje no DN

Sem comentários:

Enviar um comentário