Há dias publiquei o texto que se segue sobre a homenagem que a Câmara
Municipal de Paços de Ferreira resolveu doar aos seus ex-combatentes da guerra
do ultramar e resolvo voltá-lo a publicar no dia em que fomos homenageados e
distinguidos com uma medalha evocativa a esse acontecimento. Não quero com isto
regozijar-me de tal feito assim como não mostrar vergonha pelo meu passado. Sei
que há alguns hoje que tudo davam para esquecer esse tempo.
Mas não vale a pena. Temos de assumir o que fomos e o mais importante é mostrar hoje que estamos com o 25 de Abril. Comigo acontece isso.
Por esse motivo exponho a medalha oferecida pela Câmara Municipal de Paços de Ferreira na pessoa do seu Presidente Humberto Brito e por cada Presidente de Junta de Freguesia a que os ex-combatentes pertencem.
Ex-combatente
“A Câmara Municipal de Paços de Ferreira leva a efeito no dia 25 de
Abril o 40º. Aniversário desse acontecimento. Não sei se é a primeira vez que o
faz ou se não. O que é certo, julgo que é uma boa iniciativa e, de perpetuar.
Sabe-se que nesses tempos o concelho de Paços de Ferreira foi pródigo em
mancebos que para ali mandou. Tempos difíceis e de difícil escolha para quem
era mobilizado. Se fosse refractário sabia que enquanto durasse a ditadura não
podia voltar à minha terra: Freamunde. E… gostava e gosto dela que não
imaginam. Aconteceu a muitos.
Mas estava fora dos meus planos. Saudoso e agarrado como sou ao meu
torrão entre uma coisa e outra resolvi cumprir o serviço militar obrigatório
por terras de Angola. A família, principalmente pais e irmãos, a isso me
obrigaram. Não remediava a sua ausência durante vários anos. Assim mesmo estive
sem os ver pessoalmente, os retratos, como eram alcunhados, lá nos levava uma
bela recordação. Fosse a preto e branco ou a cores.
E, assim a 2 de Março de 1971, depois de gozado um mês de férias,
apresentei-me no Quartel CICA1 no Porto para dar continuidade ao serviço
militar. Estava ali, ia para quatro meses. Ao todo tinha oito meses de serviço
militar. Não contava com a mobilização. Mas sempre que eram afixadas nos placardes
novas mobilizações lá ia dar uma vista de olhos a ver se o nome de Manuel Maria
Ferreira Pacheco, soldado Radiotelefonista 112814/70, ali estava escrito. Não
estava. Suspirava de alegria.
Mas… nesse dia 2 de Março logo que me apresentei fui ler o tal placard
e agora constava o meu nome e ao outro dia tinha de me apresentar no Centro de
Instrução Militar de Santa Margarida (CIM), para fazer parte da Companhia de
Caçadores 3341,do Batalhão de Caçadores 3838. Sabia que Santa Margarida ficava
situada no Ribatejo, mais propriamente no concelho de Constância. Havia e há
uma Estação de Caminhos-de-ferro com o mesmo nome da vila. Dali ao Campo
Militar eram uns três quilómetros de distância num descampado onde só existia
quartéis. Fazia lembrar certas zonas operacionais como mais tarde vim a
encontrar em Angola.
Ali estive cerca de um mês a aperfeiçoar a Instrução Operacional, vulgo
(I.O.O.) onde granjeei uma série de amigos pois era o único soldado ido do
CICA1. Neste vaivém e com todas as vicissitudes chegou o dia 2 de Abril, data
em que nos foram concedidos uns dias de férias de licença, chamada de licença
de mobilização. Com a guia de transporte na mão e um sem número de fardamento
operacional para arranjar, pois quando nos é distribuído, não olham ao número de
vestimenta. Lá arranquei para Freamunde, minha terra.
Na minha cabeça surgia o pensamento de refractário. Mas logo se
dissipava. Tinha mãe e irmãos e sabia que tão cedo não os voltava a ver como
referi acima. A namorada, futura esposa, essa podia ir estar comigo caso
fugisse para França como era usual nessa época.
Fiquei contente com estes dias de licença. Só que nunca tinha dito a
minha mãe que ia acabar o serviço militar em Angola. O meu pai sabia e até
aconselhou-me a contar-lhe. Até que o resolvi fazer. As lágrimas jorraram em
catadupa pela sua face abaixo. Em mim algumas também começaram a escorrer.
Para alegrar, mas uma alegria disfarçada, a Páscoa foi no dia 11 de
Abril e, assim houve uma espécie de festa de despedida. Até que chegou o dia 14
de Abril, dia de partida para Santa Margarida, para embarcamos no dia 17 para
Angola. Dia triste. Olhava para meus pais e meus irmãos e não sabia se iria ser
a última vez que os via.
Até que chegou a hora da deslocação para a Estação de Caminhos de Ferro
de Campanhã, Porto, para partir para Santa Margarida. Há hora combinada
apareceu o senhor Coelho, taxista de profissão, para me levar de abalada. A
despedida foi triste e fugaz.
O meu pai acompanhou-me assim como um meu tio que também ia acompanhar
o filho (António Vasco), que ia para Moçambique. Na véspera teve um acidente de
motorizada e ia todo ligado e engessado o que originou a ter que acarretar com
os seus sacos de viagem. Se já ia sobrecarregado com os meus os seus mais me
sobrecarregaram. Mas teve de ser. Amigo não empata amigo e aqui tratava-se de
um familiar.
Quando ali chegamos (Estação de Campanhã) era um mar de gente. A
maioria gente jovem e vestida de cor verde. Os restantes, familiares e amigos,
a despedirem-se dos trajados a verde. Para alguns para sempre para outros por
24 meses. Era a lei da vida.
Até que chegou o dia 17 de Abril. De 16 para 17 durante a noite lá
partimos com destino a Lisboa mais propriamente ao Cais do Conde de Óbidos de
onde partiam os navios com soldados para as Colónias de Angola, Moçambique,
Guiné e as mais pacíficas, como Timor e Cabo Verde. Saímos de noite e até deu
para parecer que nos escondíamos de algo!
Depois de várias praxes embarcamos a bordo do Vera Cruz. Nessa altura
começou-se a ouvir gritos e choros. Quem entrava no Vera Cruz dava a sensação
que ia a caminho do cadafalso. Só os Oficiais do Quadro estavam sorridentes
porque era mais uma promoção em cima dos ombros. Até o nosso Primeiro e Segundo
Comandante se deram ao luxo de ir num avião da força aérea. Não eram carne para
canhão. Assim se houvesse algo no alto mar com o Vera Cruz não eram apanhados
nessa intentona. Nem toda a carne era para canhão. Valha-nos ao menos isso.
Desembarcados em Luanda na manhã de 26 de Abril há que rumar até ao
Grafanil. Outro Centro Militar como o de Santa Margarida. Depois de uns breves
dias ali no dia 4 de Maio metade da Companhia partiu para Balacende. Fazia
parte dessa metade. Lá fomos transportados por umas camionetas, tipo de levar
gado bovino e, alcançamos o Caxito que é como dizer as portas da entrada da
guerra. Para quem ia em sentido de Quicabo, Balacende, Fazenda Margarido, Maria
Fernanda, Beira Baixa, e Nambuangongo e outras, mais era a porta de entrada
quem viesse em sentido contrário a saída. Era melhor o segundo que o primeiro.
Mas o segundo ficava para uns meses depois.
Como é sabido o concelho de Paços de Ferreira contribuiu com um sem
número de soldados e oficiais milicianos. De carreira não me lembra nenhum.
Freamunde como a freguesia mais populosa do concelho contribuiu muito mais. Por
isso umas boas centenas foram ali bater com os costados. Não havia mês do ano
que não fossem mobilizados uns quantos.
Se fomos das primeiras terras a ter um morto, Nuno Augusto Ferreira
Mendes, Polícia de Segurança Pública, no 4 de Fevereiro de 1961, verdade seja
dita que das várias centenas e dos vários anos de guerrilha só morreram dois e
em acidentes. Um quando pilotava o avião do exército para o que estava
habilitado e outro num acidente de viação em Zala. Acidente estúpido. Estava encostado
a um muro, ou numa porta, quando veio em sua direcção uma viatura militar
desgovernada e sem condutor. A partir daqui ou por obra e graça do padroeiro de
Freamunde, S. Salvador, ou Mártir S. Sebastião mais nenhum pereceu por aquelas
paragens. A não ser um pequeno ferimento ou coisa de somenos importância.
Acabada a guerrilha (1975) começamos a ser alcunhados de terroristas e
outras coisas mais. Nunca levei a peito porque sabia que eram ditas por
ignorantes. Nunca fui um nacionalista mas também nunca me envergonhei do meu
passado. Passado é passado e valeu a pena esse tempo para hoje valorizar a
amizade. Amizade que nunca supus vir a alcançar. E, também verificar o quanto
éramos mal comandados. Por pessoas que por ter um segundo ou quinto ano liceal se
julgavam uns seres omniscientes. Mas que lhes faltava tudo: liderança e
humanismo. Estes dois valores não se conseguem nos livros da escola. É no
dia-a-dia: na fábrica, no campo e no mar.
Por isso vejo de bons olhos o evento que a Câmara Municipal de Paços de
Ferreira vai fazer aos ex-combatentes da guerra do Ultramar. É a forma de
agradecer aos seus filhos o esforço por uma guerra sem razão de ser. Mas não
por culpa destes. Mas sim de quem quis tornar num comércio uma guerrilha sem
fim à vista e à custa de vidas inocentes.
Não sei se vou estar presente devido a complicações de saúde mas dou o
meu aval e até já me inscrevi para receber a medalha evocativa. Se não a puder
receber paciência. Mas de uma coisa podem estar certos que senti alegria por
aqueles dois anos passados por terras de Angola. Pelo que sofri, pelos amigos
que granjeei e pelo que conheci daquela terra avermelhada. Que de certeza
absoluta vem a ser uma grande nação e o futuro de muitos jovens portugueses.”
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Caro Manuel. Bonito,emotivo relatorio de vivências. Quem viviu tamto e no combate meresce ser sempre recordado. Que ninguem te negue o teu direito e honra de deixar pegada para os novos de ás tuas vivências. Das que eu fico sempre asombrado.
ResponderEliminarParabens pelo reconhecemento.
Abraço.
reis.
Obrigado Reis. Unicamente o faço porque julgo ser o sentimento de quantos como eu fomos apanhados naquela guerrilha.
EliminarTambém um abraço.