Rádio Freamunde

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domingo, 2 de fevereiro de 2014

O dia tinha nascido às cinco e quarenta e cinco minutos:

Como de costume um céu brilhante a fazer crer que ia ser mais um dia de bastante calor. Regra geral era trinta e quatro, trinta e cinco graus celsius de máxima e vinte e quatro de mínima. O corneteiro tinha tocado a alvorada. O segundo pelotão foi tomar o pequeno-almoço pois de seguida tinha-se de pôr de abalada para mais um reconhecimento (operação militar) aos vários acampamentos do nosso inimigo que existiam na floresta do Quifuso. Íamos ser transportados de Unimogue (burro do mato) até perto da Beira Baixa para dali entrarmos na dita floresta. Mal acabamos de entrar deparamos com um laranjal e neste vários homens a quem chamávamos turras. Houve troca de tiros e fizemos um morto ao inimigo.
Seguimos o nosso itinerário e podemos ver estendido no chão o corpo inerte do tal inimigo. Pelo aspecto não tinha mais de vinte e poucos anos. Na flor da idade dizia adeus à vida. A vida era isso. Por isso o matar para não morrer. O Alferes foi aconselhado pelo nosso guia a mudarmos de objectivo porque íamos ter o inimigo sempre na nossa peugada. E tal como o nosso guia previa tivemos durante esse dia o inimigo a molestar-nos. Quando tínhamos arranjado um lugar propício para almoçar tivemos tiroteio o que felizmente não nos trouxe qualquer baixa ou ferido a não ser um arrepio que nos correu pela espinha das costas acima. A vida de soldado na guerrilha ultramarina era isto. Sobressalto atrás de sobressalto.
Assim depois de acabar o tiroteio há que recolher todos os nossos haveres e pormos em marcha. Olhávamos para o semblante de cada um e notávamos um certo receio. Mesmo assim pusemos pé a caminho e fomos ter a um local onde antes três meses tínhamos realizado uma operação a nível de sector. Nesta operação intervieram dois pelotões da minha companhia, onde eu e o cabo rádio telefonista Sancho, éramos os radio-telefonistas de serviço. Lembras-te Sancho?
As operações a nível de sector compreendiam, além de nós, as tropas dos Comandos, Paraquedistas e a Força aérea com os aviões F 16... Estes momentos vividos e agora lembrados ainda me causam uma sensação de angústia. De angústia porque nunca fomos uns malfeitores ou assassinos. Unicamente tínhamos de salvar a nossa vida. É como diz Paco Bandeira na canção: “Ter de matar p´ra não morrer”.
Éramos tratados de voluntários mas éramos uns voluntários obrigados. Quantos de nós quando ia para a mata pensava que podia ser a última vez. Tinha alturas que pensava isso. Mas vinha logo um pensamento positivo. Era azar de mais entre tantos vir logo uma bala destinada a mim. O que é certo, é que às vezes vinham e sem remetente.
Demos seguimento ao reconhecimento embora o traçado já estivesse todo alterado. Os nervos andavam alterados. E… ainda mais quando estávamos num certo sítio e apareceu a aviação a bombardear o acampamento de que seguida tínhamos de lançar um golpe de mão. O meu alferes vendo a aviação por cima de nós mandou-me entrar em contacto com ela prevenindo-os desse facto. E lá comecei eu a chamar: Pássaro, pássaro, aqui cobra, escuto. E lá ouvi: Cobra aqui pássaro transmita, escuto. Correcto. É para informar que estamos dentro do círculo e o meu maior pede atenção da vossa parte. Ok. Recebi correcto e informa o teu maior que sabemos o que estamos a fazer pois tanto nós como vós encontramo-nos dentro das coordenadas. Mais informa o teu maior para ganhar coragem para o assalto ao acampamento e que tenhais sorte. Ok. Recebi correcto e obrigado pelo estímulo.
De seguida iniciamos o golpe de mão e só encontramos animais abandonados. O inimigo tinha abalado. O mais bonito é que depois dos reconhecimentos não se via vivalma nenhuma. Ainda bem porque não tínhamos interesse no confronto. Permanecemos ali algum tempo e podemos ver como estava bem delineado o acampamento. As cubatas eram feitas através de cana de bambu e capim. Debaixo de uma densa mata com imbondeiros e outras árvores densas o que favorecia a sombra e protegia o acampamento do bombardeamento feito pela aviação. Regra geral era nas proximidades de um rio. Depois de feito todo o reconhecimento à que dar de abalada pois tínhamos outros objectivos e sabíamos que íamos ter o inimigo atrás de nós.
O reconhecimento estava no seu final. Agora era a vinda que nos preocupava. Regra geral nunca vínhamos pelo trilho mas sim a corta mato. Dava mais trabalho e demorava mais mas era mais seguro. Em fila indiana e com precaução vínhamos satisfeitos pois o reconhecimento tinha decorrido dentro do previsto. Daqui para a frente era manter a vigilância adequada que o caminho fazia-se caminhando. Entrei em contacto com a rede rádio da companhia a dar-lhes o horário e as coordenadas para onde íamos. Escusado será dizer que quando ali chegamos montamos um perímetro de segurança para não cairmos em nenhuma emboscada quer nós quer a coluna motorizada que nos vinha buscar. Nesta situação todo o cuidado é pouco.
Estávamos ansiosos por chegar ao quartel. Tantas vezes dizíamos mal dele e agora reconhecíamos o quanto nos fazia falta. Só sabemos dar valor às coisas quando não as temos. Foi o que aconteceu nestes três dias. A falta que sentimos da cama, do duche, de uma comida quente, duma Cuca ou Nokal no bar do soldado e de uma conversa em voz alta. Mas ainda bem que estávamos a menos de uma hora de chegarmos à nossa “casa”.
Já via os meus colegas de transmissões a abraçar-me por tudo correr bem. Era também o que sentia toda a corporação. Um por todos e todos por um. Depois de entregar o material de transmissões no posto de rádio desloquei-me para a camarata para me preparar para o duche. Ali desfiz a barba e saboreei a água que caía do bidão – fazia de depósito – morna derivado à alta temperatura que se fazia sentir na zona dos Dembos. Depois rumei até ao bar do soldado e logo que ali cheguei apareceu à minha frente uma Cuca, um casqueiro e chourição. Era assim que nos recebiam os nossos camaradas. Noutras alturas fazíamos nós a eles. A vida era isto. Só sabe dar valor a estes pormenores quem passou por eles. É que no regresso de cada reconhecimento parece que voltávamos a nascer.             

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