Como de costume um céu brilhante a fazer crer que ia ser mais um dia de
bastante calor. Regra geral era trinta e quatro, trinta e cinco graus celsius
de máxima e vinte e quatro de mínima. O corneteiro tinha tocado a alvorada. O
segundo pelotão foi tomar o pequeno-almoço pois de seguida tinha-se de pôr de
abalada para mais um reconhecimento (operação militar) aos vários acampamentos
do nosso inimigo que existiam na floresta do Quifuso. Íamos ser transportados
de Unimogue (burro do mato) até perto da Beira Baixa para dali entrarmos na
dita floresta. Mal acabamos de entrar deparamos com um laranjal e neste vários
homens a quem chamávamos turras. Houve troca de tiros e fizemos um morto ao
inimigo.
Seguimos o nosso itinerário e podemos ver estendido no chão o corpo
inerte do tal inimigo. Pelo aspecto não tinha mais de vinte e poucos anos. Na
flor da idade dizia adeus à vida. A vida era isso. Por isso o matar para não
morrer. O Alferes foi aconselhado pelo nosso guia a mudarmos de objectivo
porque íamos ter o inimigo sempre na nossa peugada. E tal como o nosso guia
previa tivemos durante esse dia o inimigo a molestar-nos. Quando tínhamos
arranjado um lugar propício para almoçar tivemos tiroteio o que felizmente não
nos trouxe qualquer baixa ou ferido a não ser um arrepio que nos correu pela
espinha das costas acima. A vida de soldado na guerrilha ultramarina era isto.
Sobressalto atrás de sobressalto.
Assim depois de acabar o tiroteio há que recolher todos os nossos
haveres e pormos em marcha. Olhávamos para o semblante de cada um e notávamos
um certo receio. Mesmo assim pusemos pé a caminho e fomos ter a um local onde
antes três meses tínhamos realizado uma operação a nível de sector. Nesta
operação intervieram dois pelotões da minha companhia, onde eu e o cabo rádio
telefonista Sancho, éramos os radio-telefonistas de serviço. Lembras-te Sancho?
As operações a nível de sector compreendiam, além de nós, as tropas dos
Comandos, Paraquedistas e a Força aérea com os aviões F 16... Estes momentos
vividos e agora lembrados ainda me causam uma sensação de angústia. De angústia
porque nunca fomos uns malfeitores ou assassinos. Unicamente tínhamos de salvar
a nossa vida. É como diz Paco Bandeira na canção: “Ter de matar p´ra não
morrer”.
Éramos tratados de voluntários mas éramos uns voluntários obrigados.
Quantos de nós quando ia para a mata pensava que podia ser a última vez. Tinha
alturas que pensava isso. Mas vinha logo um pensamento positivo. Era azar de
mais entre tantos vir logo uma bala destinada a mim. O que é certo, é que às
vezes vinham e sem remetente.
Demos seguimento ao reconhecimento embora o traçado já estivesse todo
alterado. Os nervos andavam alterados. E… ainda mais quando estávamos num certo
sítio e apareceu a aviação a bombardear o acampamento de que seguida tínhamos
de lançar um golpe de mão. O meu alferes vendo a aviação por cima de nós
mandou-me entrar em contacto com ela prevenindo-os desse facto. E lá comecei eu
a chamar: Pássaro, pássaro, aqui cobra, escuto. E lá ouvi: Cobra aqui pássaro
transmita, escuto. Correcto. É para informar que estamos dentro do círculo e o
meu maior pede atenção da vossa parte. Ok. Recebi correcto e informa o teu
maior que sabemos o que estamos a fazer pois tanto nós como vós encontramo-nos
dentro das coordenadas. Mais informa o teu maior para ganhar coragem para o
assalto ao acampamento e que tenhais sorte. Ok. Recebi correcto e obrigado pelo
estímulo.
De seguida iniciamos o golpe de mão e só encontramos animais
abandonados. O inimigo tinha abalado. O mais bonito é que depois dos
reconhecimentos não se via vivalma nenhuma. Ainda bem porque não tínhamos
interesse no confronto. Permanecemos ali algum tempo e podemos ver como estava
bem delineado o acampamento. As cubatas eram feitas através de cana de bambu e
capim. Debaixo de uma densa mata com imbondeiros e outras árvores densas o que
favorecia a sombra e protegia o acampamento do bombardeamento feito pela
aviação. Regra geral era nas proximidades de um rio. Depois de feito todo o
reconhecimento à que dar de abalada pois tínhamos outros objectivos e sabíamos
que íamos ter o inimigo atrás de nós.
O reconhecimento estava no seu final. Agora era a vinda que nos
preocupava. Regra geral nunca vínhamos pelo trilho mas sim a corta mato. Dava
mais trabalho e demorava mais mas era mais seguro. Em fila indiana e com
precaução vínhamos satisfeitos pois o reconhecimento tinha decorrido dentro do
previsto. Daqui para a frente era manter a vigilância adequada que o caminho
fazia-se caminhando. Entrei em contacto com a rede rádio da companhia a
dar-lhes o horário e as coordenadas para onde íamos. Escusado será dizer que
quando ali chegamos montamos um perímetro de segurança para não cairmos em
nenhuma emboscada quer nós quer a coluna motorizada que nos vinha buscar. Nesta
situação todo o cuidado é pouco.
Estávamos ansiosos por chegar ao quartel. Tantas vezes dizíamos mal
dele e agora reconhecíamos o quanto nos fazia falta. Só sabemos dar valor às
coisas quando não as temos. Foi o que aconteceu nestes três dias. A falta que
sentimos da cama, do duche, de uma comida quente, duma Cuca ou Nokal no bar do
soldado e de uma conversa em voz alta. Mas ainda bem que estávamos a menos de
uma hora de chegarmos à nossa “casa”.
Já via os meus colegas de transmissões a abraçar-me por tudo correr bem. Era também o que sentia toda a corporação. Um por todos e todos por um. Depois de entregar o material de transmissões no posto de rádio desloquei-me para a camarata para me preparar para o duche. Ali desfiz a barba e saboreei a água que caía do bidão – fazia de depósito – morna derivado à alta temperatura que se fazia sentir na zona dos Dembos. Depois rumei até ao bar do soldado e logo que ali cheguei apareceu à minha frente uma Cuca, um casqueiro e chourição. Era assim que nos recebiam os nossos camaradas. Noutras alturas fazíamos nós a eles. A vida era isto. Só sabe dar valor a estes pormenores quem passou por eles. É que no regresso de cada reconhecimento parece que voltávamos a nascer.
Já via os meus colegas de transmissões a abraçar-me por tudo correr bem. Era também o que sentia toda a corporação. Um por todos e todos por um. Depois de entregar o material de transmissões no posto de rádio desloquei-me para a camarata para me preparar para o duche. Ali desfiz a barba e saboreei a água que caía do bidão – fazia de depósito – morna derivado à alta temperatura que se fazia sentir na zona dos Dembos. Depois rumei até ao bar do soldado e logo que ali cheguei apareceu à minha frente uma Cuca, um casqueiro e chourição. Era assim que nos recebiam os nossos camaradas. Noutras alturas fazíamos nós a eles. A vida era isto. Só sabe dar valor a estes pormenores quem passou por eles. É que no regresso de cada reconhecimento parece que voltávamos a nascer.
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