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domingo, 26 de janeiro de 2014

Não estava nos nossos horizontes:

Parece que foi ontem e já lá vão uns anos. O vinte e cinco de Abril tinha sido há pouco. Os operários/as conseguiram um mês de férias como tinham os funcionários públicos e além disso o subsídio de Férias e de Natal como eram apelidados nessa altura. Nas férias no mês de Julho ou Agosto, principalmente estes, os operários/as aproveitam esse tempo para levarem os filhos à praia. Esse acrescento veio ajudar a que nesses meses houvesse uma folga na economia mensal.
Era um frenesim. Havia excursionistas que antes uns tempos iam de porta em porta arranjar clientes para num desses meses irem todos dias à praia, excepto aos Domingos. O autocarro fazia a recolha de todos os clientes e lá partia ou para a praia de Leça, Matosinhos, Foz ou A Ver-o-Mar. Na chegada ali era uma alegria. A criançada e juventude davam azo à alegria. E… não era para menos. 

Noutros tempos com outras crianças e jovens não se davam estes acontecimentos. O mar ficava longe. Alguns diziam que ficava no cu do judas. E eu que até percebia de geografia não sabia onde ficava esse sítio com um nome tão esquisito.
Sobre o mar lembro-me da minha mãe falar e como achava a água azul – como se água tivesse cor – e areia com os seus pequenos grãos a enfiarem-se nos dedos dos pés e fazer cócegas na planta do pé. Ouvia essas peripécias com uma atenção deslumbrante. Quem me dera ver o mar. Mas não podia ser. Eu era macho e não havia casas no Porto ou noutras cidades perto das praias que solicitassem os serviços de criados de servir. Eram só criadas de servir. As minhas irmãs tiveram essa sorte. Viram primeiro o mar que eu. 
Quando veio o vinte e cinco de Abril já era homem. E nesta altura já estava farto de mar. A viagem para Angola ao serviço da Pátria fez-me andar nove dias e nove noites em cima dele. Mas não era igual. Ali faltava a praia com a areia a ser beijada pela espuma da água salgada do mar.
Era o que as crianças iam ver todos os dias nesses meses de Julho ou Agosto. Eram os primeiros da casa a acordar. Depois do autocarro recolher todos os clientes e de se fazer à estrada gritavam para o condutor: “senhor condutor ponha o pé no acelerador”. Chegados à praia era ver qual o primeiro a ir à água. É que nestas situações a fome é igual à vontade de comer.
Ali permaneciam a fazer pocinhas ou a brincar uns com os outros. De vez em quando presenciavam uma gaivota nos seus voos rasantes à procura de um peixe mais desprevenido. E até havia quem cantasse: “uma gaivota voava, voava, asas de vento coração de mar”.
O mar tinha esta particularidade. Nos meses de verão era uma acalmia e sabia receber quem ali ia por bem. Nos meses de inverno mostrava o seu desdém pelo abandono a que o votavam. Mas neste tempo à que conviver bem com ele. Mostrar-lhe que o vinte e cinco de Abril não veio só para os humanos. Também para o ecossistema. E assim havia uma simbiose. Dos que gostavam de ali permanecer e o mar que gostava de companhia.
Mas infelizmente esses tempos estão acabar. As crianças não têm possibilidades de continuar a ir frequentar o mar. Vai acontecer de ouvir falar do mar e julgar que fica no cu do judas. De o ver pelas imagens da televisão coisa que no meu tempo não era possível porque ninguém o ia filmar. Só se fosse numa fotografia como a minha mãe tirou dentro do barco “Amor” a contemplar a praia com a areia fina e cor de oiro. E assim estes locais também vão padecer com a crise que alastra o País.
As “modas” que este governo introduziu só vieram piorar a vida dos portugueses. Regalias que foram ganhas com o vinte de Abril pelos trabalhadores estão a ser esbulhadas. Não sermos senhores do que é nosso. Pagar em duodécimos o que devia ser pago de uma só vez. Fazerem de conta que somos inimputáveis. Se há inimputáveis neste País eles estão no governo.
Por isso as nossas crianças e jovens um dia adultos vão se lembrar como algozes foram os membros do décimo nono governo de Portugal. E dizem uns para os outros: mais pareceram o bando dos quarentas ladrões.

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