Por que é que o Governo PSD-CDS tem uma generosidade que nos custa
milhares de milhões com os bancos? Por que é que o PS não tem aquela reacção
que se esperaria de um partido dito "de esquerda"? As duas questões
conduzem-nos a uma terceira. Como é que durante anos a fio se enriqueceu num
país cujo povo aceitou facilmente a ideia de ter vivido acima das suas
possibilidades e se sujeita a sacrifícios para pagar o que nunca usufruiu?
Pedro Bingre, nos vídeos juntos, dá algumas pistas.
Enriquecer acima das nossas possibilidades não foi assim tão
complicado. O modelo é simples: alguns grupos de amigos constituíam a empresa
A, que adquiria terrenos agrícolas ao preço da chuva. Entretanto, entrava em
cena o autarca que transformava esses terrenos agrícolas em áreas urbanizáveis,
acrescentando uma série de zeros à direita do seu valor. O grupo de amigos da
empresa A fazia então entrar em cena a empresa B, também sua propriedade, cujo
papel neste manual do enriquecimento fácil era comprar à empresa A, ou seja, os
amigos compravam a si próprios, esses terrenos agora urbanizáveis e valorizados
artificialmente. E como fazer isto sem ter dinheiro?
Não há nada que não se torne simples quando se tem o poder nas mãos.
Entram então em cena outros amigos, estrategicamente colocados por ainda outros
amigos no sector financeiro, e estes, naturalmente, convenciam-se facilmente a
emprestar à empresa B o montante suficiente para assegurar o negócio, aceitando
como garantia real os terrenos que, até porque a bolha imobiliária já tinha
estourado, sabiam perfeitamente nada valerem. Desfecho lógico: passado um
tempo, A empresa B assumia junto do banco não ser capaz de pagar o empréstimo,
o banco executava a hipoteca e incorporava nos seus activos um terreno sem
qualquer valor, enquanto os amigos punham a salvo os milhões conseguidos pela
sua empresa A. São estes milhões que estamos a pagar pelo BPN, pelo BPP, pelo
Banif e por todos os demais "ai aguentam, aguentam".
A emoldurar todo este carnaval, para assegurarem um final feliz a esta
parcela da história dos enriquecimentos na era do centrão, falta referir as
leis e o sistema de Justiça que os sucessivos Governos PSD e PS, com ou sem o
CDS, se encarregaram de organizar de forma evitar sobressaltos no futuro. Esse
futuro que entretanto chegou, com bifes carregadinhos de culpa que não devem
comer-se todos os dias, com uma comunicação social nas mãos de quem também
participou no grande banquete e sem a perda do poder que agora usam para nos
porem a pagar os buracos causados pelas suas fortunas nos balanços dos bancos,
para cúmulo ainda aproveitando a situação que geraram para proporcionar novos
enriquecimentos privatizando serviços públicos e vendendo empresas públicas ao
desbarato aos mesmos ou a outros amigos.
A continuidade deste carnaval pode ser interrompida no futuro que ainda
não chegou, é verdade, mas para isso é preciso que os portugueses ganhem juízo
e tratem de fazê-lo chegar bem depressa, antes que não reste nada que faça
valer a pena lembrar como deixámos que tudo acontecesse sem resistência que se
visse.
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