É de todo inadmissível que o Governo continue sem tomar nenhuma
iniciativa para renegociar a dívida e baixar o juro que Portugal paga.
As más notícias, as medidas que agravam sem cessar a situação dos
portugueses - em particular a classe média e os mais desprotegidos -, as faltas
de visão, de preparo e de rigor, mesmo as mentiras e pouca vergonhas,
sucedem-se em acelerado ritmo. Assim, sobrepondo-se umas às outras, as mais
recentes, descontextualizadas, vão apagando ou minimizando as anteriores. Isto
é: veem-se as (novas) árvores mas não a floresta; e nas árvores veem-se os
(novos) ramos, mas não a copa, nem o tronco e muito menos as raízes.
Não trato agora, pois, das "mensagens" de Natal do
primeiro-ministro, que estiveram à sua altura, nem de outras recentes miudezas.
Verifico e saliento que chegados ao fim 2012, temos de concluir que foi um ano
horribilis para Portugal. E tem-se como certo que 2013 será ainda pior. Ora, o
que tinha sido dito, garantido, é que em 2012 começaria a viragem ou
recuperação, que em 2013 se consolidaria. Tudo, porém, ocorreu ao contrário e
as perspetivas são muito más.
Ora, a principal responsabilidade da situação em que estamos, e da
falta de esperança para o futuro próximo, é, claro, de quem hoje nos governa -
sem esquecer responsabilidades anteriores e a persistente crise europeia, que
contribui para a gravidade da situação e a
dificuldade de a ultrapassar. De forma telegráfica, alguns sublinhados
sobre o que julgo estar na sua base.
O Governo, ou a dupla Passos Coelho/Gaspar tem uma ideologia e uma
política neoliberais, às vezes ultra, que vai para além dos ditames da troika,
em vez de os amenizar e adaptar à realidade nacional. Mau grado os resultados
que estão à vista, com o sucessivo incumprimento das metas estabelecidas, até
no défice, insiste no mesmo caminho e nos mesmo erros. Contra tudo e contra
todos (exceto os mandantes, cúmplices ou dóceis apaniguados), "custe o que
custar". E, para mal de todos nós, tem custado e vai continuar a custar
muito.
O único objetivo parece ser "voltar aos mercados", como fim
em si e não um meio para... Mas - que projeto para um Portugal que volte a ser
mais próspero e sobretudo mais livre e mais justo? Nenhum projeto, nenhuma
esperança para o futuro, nenhuns "estadistas" ou sequer políticos dos
que estão no Poder em que os portugueses confiem para serem os rostos e os
protagonistas desse projeto e dessa esperança. Esta a triste realidade.
Triste realidade para a qual contribui, e de que faz parte o impiedoso
ataque, nas relações sociais, ao fator trabalho, com um paralelo desmantelamento
do Estado Social. Desmantelamento, insisto, não a sua adequação, transitória ou
duradoura, para o preservar, a uma situação difícil. De tal forma que ainda há
dias uma grande figura conservadora, mas humanista, que ocupou dos mais altos
cargos, me dizia que o atual Poder quererá destruir o Estado Social porque se
convenceu de que, se assim não for, será o Estado Social que destruirá o modelo
de sociedade que defende.
E triste realidade de que faz parte também a venda, por junto ou a
retalho, de património que o País, o Estado, nunca deveria alienar, muito menos
(para já não falar em questões de "transparência") nas atuais
condições de mercado e com a "corda na garganta". Este é, aliás, um
dos domínios em que se compreende mal a pouca combatividade, e uma certa falta
de consistência, de um PS e de um António José Seguro que penso estarem longe
de, em geral, aparecer como uma alternativa convincente, antes surgindo como um
eventual mal menor.
Há muitos outros aspetos a considerar e lamentar, até no plano ético,
na minha ótica fundamental. E questões importantes, até no plano simbólico,
como a da remodelação ministerial, com a substituição da Miguel Relvas: ou
ocorre, e a curto prazo, ou ainda mais se afundará a credibilidade de Passos
Coelho. Por último, a questão da renegociação da dívida, com descida da taxa de
juro. É de todo incompreensível e inadmissível que o Governo continue sem tomar
nenhuma iniciativa nesse sentido, quando se somam os argumentos e as
circunstâncias favoráveis à consecução do que tem de ser encarado como um
objetivo nacional prioritário. Voltarei ao tema.
José Carlos de Vasconcelos – Visão, opinião

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