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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

25 de Abril de 1974:


Este dia foi para os portugueses o elixir que necessitavam. Quarenta e oito anos, de ditadura, tinha sido mau de mais para a maioria da população. Ainda temos na lembrança o que era Portugal. Barracas, a que chamávamos casas, caminhos que apelidávamos de ruas e fossas mouras que dizíamos WCs, outros com a falta destas, aproveitavam-se dos quintais e montes para fazer as suas necessidades.
Nas grandes cidades via-se a miséria do País. Os pedintes que diariamente se tinham de fazer à vida para arranjar esmolas para comer nesse dia - não contando com os pobres dos avós e tias de Lobo Antunes. Esses tinham mais sorte. Eram pobres credenciados. Os da minha terra pediam às terças e sextas-feiras quando não eram impedidos pela GNR, porque era proibido pedir esmola e andar descalço na rua. Sobre isto conto uma peripécia. 
Um dia dirigíamos para Lousada, num dia de festas naquela vila, para assistir a uma prova de ciclismo. Éramos quatro. Dois calçados e dois descalços. À chegada a Lousada deparamos com dois agentes da GNR e para passar tivemos a ideia dos dois calçados dispensar um sapato a cada descalço para assim ludibriar os dois GNRs. Mas não valeu de nada. Voltamos para trás. 
Depois da finta que tentamos fazer nem os donos dos sapatos conseguiram passar. 
Era esta a triste realidade. Além de não haver posses para termos estes objectos ainda nos era interdita a entrada em certos lugares. Esta miséria tinha de ser escondida de quem nos visitava.
    
Com o vinte e cinco de Abril estes problemas foram diluindo. Criaram-se estruturas e leis para remediar certos males. A construção civil passou a ser uma realidade. As novas casas passaram a ser obrigadas a ter as necessidades mínimas: quartos de banho com chuveiro, deixou-se de se lavar nas bacias, sanitas, acabou-se com o chamado penico, a ter luz eléctrica o que já se podia adquirir o cilindro para a água quente e electrodomésticos.  
Com o aumento do nível de vida os pobres passaram a remediados os remediados a classe média e assim a vida começou a sorrir para esses portugueses. 
As entradas das cidades começaram a dar outro aspecto de vida. As aldeias e vilas também se desenvolveram. 
Em Freamunde as fábricas começaram a pagar melhor aos seus funcionários o poder autárquico a ter melhores meios e certos lugares que até aí não dispunham de electricidade pública passaram a usufruir. O lugar da Bouça era o exemplo disso.
A criação de instituições para a defesa dos mais necessitados e idosos foi uma realidade. A Caixa de Previdência que até aí era gerida e mal fiscalizada começou a entrar nos eixos. 
O SNS com a aprovação da nova Constituição da República e mais tarde com o "despacho Arnaut" que revolucionou o SNS passou a garantir a todos os portugueses independentemente da sua condição social, pela primeira vez, a universalidade, generalidade e gratuitidade dos cuidados de saúde e a comparticipação medicamentosa.
O Subsídio de Desemprego e o Rendimento Social de Reinserção veio colmatar a pobreza.    
Foi assim que os governos, especialmente o do Partido Socialista, que atenuou a pobreza portuguesa. Mas volvidos trinta e oito anos com um governo ultra direita estamos a voltar às origens. 
Está-se a entregar as casas aos bancos. Não têm forma para pagar a prestação mensal. A solução é ir viver para debaixo da ponte. É o que está a acontecer a uma grande parte de portugueses. É difícil aguentar tal situação. 
Relembrar o vinte de Abril já passa a ser uma ilusão.

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