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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O microfone de pé:


Gosto de ler ou ouvir Fernando Alves. Uma voz melodiosa e uma escrita que à medida que se vai lendo nos cativa mais. Receio que lhe venha a acontecer o mesmo que a Nicolau Santos. Pessoas que se metem com o governo têm os dias contados. 
Este «governo» não sabe conviver com a crítica o mesmo acontece com Cavaco Silva. Mas nesta quadra está mais interessado em devorar o bolo-rei.
 
Fernando Alves expõe nesta crónica e refere amiúde a fila de ministros a parede e o tapete. Diz que se encontram em cima do tapete mas quanto a mim só lhe falta dizer que este tapete devia ter o condão do que nos conta a história das mil e uma noites e fazer com que estes ministros e presidente da república sejam levados para a Pérsia e não tenham retorno. O País ficava a lucrar se eles fossem para a gruta de Ali-Babá. Em lugar de quarenta eram cinquenta e três.
"O microfone de pé tinha sido testado. A qualidade de som é, aliás, excelente.
O microfone está colocado num dos cantos do enorme tapete da Sala dos Embaixadores. A colocação deve ter obedecido a medições rigorosas.
Há, sobre o microfone de pé, um candelabro de tecto aceso.
Há uma fila de ministros, de um dos lados do microfone, ao longo da cabeceira do tapete. Entre o tapete e a parede. Estão de pé, circunspectos. Não encostados à parede. Nem no tapete. Entre a parede e o tapete. Circunspectos. Do outro lado do microfone de pé, alguns membros da Casa Civil. E da Casa Militar. De uma sala contígua, surgem o Primeiro Ministro, antecedendo o Presidente. O microfone de pé já tinha sido testado. A qualidade de som é, aliás, excelente.
Passos toma o seu lugar, alinhado com os ministros. O Presidente faz o mesmo, no ângulo oposto. Estão equidistantes do microfone de pé.
Passos dá um passo, hesitante. E pergunta: "Sr. Presidente, quer que eu fique aqui mais próximo de si?". Uma assessora assuma, hesitante em assessorar. Não se escuta a voz do Presidente, não obstante a excelência da qualidade de som. Vê-se, apenas, a mão presidencial, providencial, levando o microfone para mais longe de si, para mais perto do Primeiro Ministro. Depois, o Presidente recua dois passos. Passos cruza as mãos atrás das costas: "Eu estou aqui com o governo todo". Não está, faltam dois ministros. Mas quem se preocupa com detalhes se já nem o ritual tem a chama de outrora, a institucional chama de outrora?
Em 2009, com Sócrates, a frieza protocolar durou 7 minutos, mas sem microfones. Ontem, o microfone de pé registou as palavras de uma via sacra. Belém hirta era uma estação do Senhor dos Passos. Passos entrou e saiu do pretório, com um sorriso de lâmina de quem não sabe como evitar o calvário.
Na página da Presidência está o registo da cena. Ao lado do video, uma sequência de fotos, frios bacalhaus natalícios. Há uma indicação: "Clique na imagem para ampliar". Mas talvez não devessem ampliar imagens que diminuem."
Bom natal.
Fernando Alves escreve no português anterior ao acordo ortográfico.

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