Ao ver que não o ia conseguir domesticar, Lisboa recebeu-o com pedras.
A campanha suja contra o bastonário eleito pelos advogados da província
decorreu com o profissionalismo que Fernando Gomes testemunhou quando teve a
fraqueza de trocar o lugar de melhor presidente da Câmara que o Porto teve por
um gabinete subalterno na esquina do Terreiro do Paço, onde Manuel Buíça feriu
de morte a Monarquia.
A campanha falhou no que estava programado ser o ato final da
lapidação, o tribunal da TVI onde a tonta Moura Guedes teve a imprudência de
chamar bufo a um homem que após ter sido preso pela Pide, em Coimbra, aguentou
como um herói as humilhações, os três dias e três noites de interrogatórios e
os 34 dias no isolamento, em Caxias.
O arraso que o bastonário deu à apresentadora televisiva, que por ter a
boca maior que o cérebro está sempre a tentar dar passadas maiores que a perna,
é um dos meus vídeos favoritos (a par do dos golos do 5-0 que o meu Porto deu
ao Benfica do Marinho), que de vez em quando revisito no YouTube. É um
espetáculo de cidadania.
Tenho muito orgulho em ser amigo do Marinho, de quem fui colega durante
quase 20 anos, na Redação do "Expresso", quando ele usava o nome
António Marinho.
Um das coisas que mais admiro nele é que ao longo das suas sucessivas
reencarnações - universitário revoltado com a ditadura, professor, advogado,
jornalista e bastonário - nunca teve medo de dizer o que pensa em voz alta e de
pertencer aquele raro grupo de pessoas que quando lhe fazem uma pergunta a sua
resposta não tem por objetivo agradar a quem a fez.
Com o Marinho e Pinto, bastonário reeleito por maioria absoluta e com a
maior votação de sempre, estive apenas umas duas ou três vezes, a última das
quais, há quase dois anos, terminou à mesa, à volta de um leitão, no Albatroz.
Mas, para além de coabitarmos uma vez por mês esta página do nosso JN,
vou acompanhando e aplaudindo à distância o seu combate por uma justiça mais
barata, contra a soberba dos juízes, que se julgam donos dos tribunais, e um
Parlamento que se tornou numa central de tráfico de influências, onde os
deputados podem ter clientes com interesses nas leis que eles fazem.
Gostei da frontalidade com que avisou os estudantes para fugirem dos
cursos de Direito, evitando assim que a massificação acentue a proletarização e
degradação da classe. E assino por baixo quando ele, de sobrolho carregado,
denuncia uma Justiça injusta, cheia de silêncios e mentiras, que se curva
perante os ricos e poderosos - e maltrata os pobres e desprotegidos.
Mas o que mais tenho a agradecer ao meu amigo Marinho é ter desmentido
a fatalidade dos provincianos, como nós, se deixarem corromper pelo luxo e
prazer - o cheiro a canela... - de Lisboa, tão bem caricaturado por Camilo, em
"A queda de um anjo", na pessoa do deslumbrado fidalgo minhoto
Calisto Elói.
Jorge Fiel no JN de hoje
Jorge Fiel no JN de hoje
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