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sábado, 1 de dezembro de 2012

Nem tudo o que reluz é ouro:


Há muitos anos, era ainda rapazote, todos os dias passava no lugar da Vista Alegre, um sexagenário envergando uma bata, peça de vestuário de trabalho, bastante suja, derivado aos dias de uso. Vinha do lugar do Alto da Feira e diariamente ia pela Vista Alegre para se dirigir para o lugar do Calvário. No lugar da Vista Alegre, entre muitas casas, havia uma, em que os seus moradores eram de fartos recursos. Esse casal tinha filhos e entre eles, uma menina que era a mais velha. Como todos os dias essa menina via esse sujeito mal trajado na sua mente via um pobre de pedir.
Nessa altura era usual, se a memória não me falha, às terças e sextas-feiras, os pedintes percorrerem os vários lugares de Freamunde pedindo esmola. Lembro e todos os Freamundenses recordam-se do senhor Arnaldo de Lustosa que nesses dias percorria Freamunde pedindo esmola. À sua morte deixou uma boa herança a uma sua sobrinha.
Como esse sujeito continuava a passar à porta dessa menina esta começou a pedir uma moeda à mãe para lhe dar. Recebia-a e nada dizia à menina. No percurso até ao local para onde se dirigia ia meditando e olhando para a sua figura, a forma como ia vestido. Assim, levou-o à conclusão que a menina o tinha como um pobre de pedir. Continuou a passar e a receber a dita moeda sempre com um olhar de carinho pela menina.
Um dia nesse trajecto encontrou a mãe da menina à porta de casa e chamou-a. Meteu a mão no bolso da bata e dali retirou umas poucas moedas, tantas como lhe tinha ofertado a menina e deu-as à mãe dizendo-lhe: 
- Há vários dias quando aqui passo a sua filha aproxima-se de mim e dá-me uma moeda. Na primeira vez achei estranho mas com o passar dos dias deduzi que ela me julga um pobre de pedir pela forma como vou trajado para o trabalho. Sempre aceitei a moeda para não desiludir a sua filha com a imaginação a meu respeito. Por isso hoje devolvo-lhe as moedas e referir-lhe que fiquei sensibilizado pela atitude da sua filha. 
Só tenho a pedir-lhe desculpa senhor Pereira da Costa - respondeu a mãe da menina. Há vários dias que ela me vinha pedindo uma moeda para dar a um pobrezinho mas nunca julguei que era o senhor o pobrezinho da minha filha. Senão tinha-lhe dito que bom era para Portugal que todos os pobrezinhos fossem como o senhor. 
- Não precisa de pedir desculpa e quase me sinto culpado pela confissão que lhe fiz. Até lhe agradecia que nada lhe dissesse para ela continuar a julgar que sou o seu pobre.
Ouvi esta história, que julgo verídica, há dias numa conversa relembrando pessoas idas que muito contribuíram para o desenvolvimento de Freamunde. Quem a contou foi Vitorino Ribeiro que nessa altura era empregado de escritório na fábrica do Calvário, de António Pereira da Costa, o imaginário pobrezinho da filha mais velha do falecido Domingos Taipa.            

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