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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Conversas de lavadouro:


Vais à feira de Santa Luzia? Não sei - respondeu Águeda. A vida está muito má e para fazer monte prefiro estar em casa. Não é bem assim - disse a Rosa que desde que se lembra nunca falhou a uma. Mesmo com o provável dia de chuva conto lá estar e apreciar todo o ambiente porque a “noveirar” não se gasta dinheiro. Como sabes que vem chuva - admirou-se a Águeda! Ó mulher. Não sabes que se estiver sol no dia de Nossa Senhora da Conceição o de Santa Luzia é de chuva - desabafou a Rosa. E não esteve de sol nesse dia? Não conheces o ditado? Conceição de sol Luzia de chuva!
Esta conversa foi mantida durante a lavagem de roupa no lavadouro de Além. Era ali que muita gente das proximidades fazia a barrela à roupa dos seus familiares às segundas-feiras. Havia uma ou outra lavadeira que o fazia perante o pagamento de uma jorna. Tempos difíceis requerem o aproveitamento de qualquer trabalho. A conta na mercearia do “Venturinha” estava prestes a ter de ser saldada e para trazer novo fiado tinha-se que pagar o anterior. De quinze em quinze dias tinha-se este compromisso. Mas… os quinze dias para se receber a féria eram longos. Ao contrário, os quinze que se tinha de pagar a dívida eram rápidos. Estes eram os pensamentos da Rosa. A conversa tinha acabado. Mas era o que todas as mulheres que com ela se encontrava naquele ofício diziam constantemente.
Olhava para uma e outra e pensava o que foram e o que agora são. A Matilde, que estava a lavar de frente a ela era o retrato desse seu pensamento. Em solteira, alegre e desinibida. Casou. Sempre triste. Não sabia se era pela "ranchada" de filhos que tinha. Era um fora outro dentro. Dizia que não era a favor dos contraceptivos. A moral com que foi criada a levava a isso. Em solteira não faltava a uma missa. Até foi catequista. Só o deixou de ser quando casou. A esta não perguntava se ia à feira de Santa Luzia porque recebia como resposta: quem fica com os meus filhos mais pequenos? O meu homem! Nem penses. Porque era o mesmo que ficarem sozinhos.
Olhava para a Lurdes e via o preto do seu traje. Era muito jovem quando ficou viúva. Maldita guerra ultramarina. Tão bom rapaz e tinha de ser logo ele. Ao menos deixou-lhe um rebento. Foi esse o motivo por que casaram antes de ele ir para Angola. Era agora o orgulho dela. E como são parecidos. Quantos daqui foram que se lhes acontecesse isso não eram tão lembrados. Não penso assim pelo Tónio ser filho da minha tia Alzira. Não! Era mesmo uma jóia de rapaz.
A Laura, a única solteira do grupo de lavadeiras, todas as segundas-feiras contava as peripécias que teve com o namorado no dia anterior. Às vezes chegava para corar a maioria de nós. E… nos nossos tempos não éramos nenhumas santas. Neste dia não se referia a isso. Seria que se chatearam? Também dizem que têm outras. Admira-me não ser sabedora! Mas por um lado é bem feito para a mãe. Foi a favor do filho ter deixado a namorada e já se falava em casamento. A coitada da Ana nunca mais arranjou namorado. Também constava-se que o namoro ia adiantado de mais e agora os rapazes rejeitavam-na. Era bonita e bem torneada. Mas… os preconceitos nos meios pequenos a isso os obrigavam. Alguns iam fora da terra arranjar namorada, casavam e, não sabiam o que lhes tocava. Santos, neste caso santas, da casa não fazem milagres. 
Os minutos e horas iam-se passando. Algumas lavadeiras já tinham lavado a sua roupa e agora ajudavam uma ou outra para não irem sozinhas para casa. Era o que acontecia à Rosa e à Águeda. Sempre inseparáveis. Por isso voltou a perguntar-lhe. - Vais ou não vais à feira de Santa Luzia? - Oh mulher! Contigo vou até ao fim do mundo - respondeu a Águeda. Mas não vou para gastar dinheiro. - Não me digas que já fizeste todas as compras para o Natal? - Retorquiu a Rosa. – Não! Mas conto fazê-las na loja do Venturinha, sabes como eu sou - disse a Águeda. Não estou para comprar lá a fiado e ir para a feira pagar a dinheiro. Não concordo contigo quando dizes que não ligas a isso. Se serve para uns géneros alimentícios também serve para outros. E, olha para o que digo. Ali não falta nada. Pelo menos é o que dizem os versos do nosso poeta, Rodela.
A loja do Venturinha / tem de tudo quanto há / desde a piada fresquinha / ao pacotinho de chã. Nem o livro dos fiados / naquela loja acabou, / os tempos foram mudados / mas lá sempre se fiou. Quem lá comprar ou vender / se não leva, vai trazer / sempre mais sabedoria. Os clientes que lá vão, / vão por alguma razão / não é só porque se fia."
Por isso vou para te fazer companhia - assim, Águeda - deu por terminada a conversa uma vez que estavam próximas de casa.

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