Ao ler a página de Pedro Passos Coelho no facebook encontrei o
agradecimento que lhe faz e pede para ele explicar a sua mãe onde errou
para que Portugal se tornasse num País pedinte.
Sou mais novo sete anos que a sua mãe, mas do mesmo modo, também me sinto responsável pelo descalabro de Portugal e assim aproveito esta missiva para me penitenciar. Não há coisa que nos torne mais livres que é o assumir das nossas culpas.
Sou mais novo sete anos que a sua mãe, mas do mesmo modo, também me sinto responsável pelo descalabro de Portugal e assim aproveito esta missiva para me penitenciar. Não há coisa que nos torne mais livres que é o assumir das nossas culpas.
Desde já o meu pedido de desculpas pela ousadia da
publicação da sua carta aqui no meu blogue.
Mas, espero que compreenda que gosto de salientar os dotes de quem os têm. E a sua resposta a Passos Coelho em nome da sua mãe é das coisas mais bem escritas que li até hoje.
Por isso o abuso de a publicar.
Mas, espero que compreenda que gosto de salientar os dotes de quem os têm. E a sua resposta a Passos Coelho em nome da sua mãe é das coisas mais bem escritas que li até hoje.
Por isso o abuso de a publicar.
Espero que sua mãe obtenha resposta
de Passos Coelho aqui no facebook para eu também saber onde errei.
Um abraço.
"Caro Pedro,
antes de mais os meus sinceros agradecimentos pela amabilidade que tiveste em prescindir dos poucos momentos em que não tens que carregar o país às costas, para pensar um pouco em nós e nos nossos natais.
antes de mais os meus sinceros agradecimentos pela amabilidade que tiveste em prescindir dos poucos momentos em que não tens que carregar o país às costas, para pensar um pouco em nós e nos nossos natais.
Retrataste com a clarividência de poucos a forma penosa como
atravessamos esta quadra que deveria ser de alegria, amor e união. És de facto
um ser iluminado e somos sem dúvida privilegiados em ter ao leme da nossa nau
um ser humano de tão refinada cepa.
Gostava também de ser interlocutor de alguém que queria aproveitar o
espírito de boa vontade que a quadra proporciona para te pedir sinceras
desculpas…a minha mãe.
A minha mãe é uma senhora de 70 anos, que usufruindo de uma escandalosa
pensão de mil e poucos euros, se sente responsável pelo miserável natal de
todos os seus concidadãos. Ela não consegue compreender onde falhou, mas está
convicta de que o fez…doutra forma não terias afirmado o que afirmaste.
Tentarei resumir o seu percurso de vida para que nos ajudes a identificar a
mácula.
A minha mãe nasceu em Alcácer do Sal começou a trabalhar com 12 ou 13
anos…já não se recorda muito bem. Apanhava ganchos de cabelo num salão de
cabeleireiro, e simultaneamente aprendia umas coisas deste ofício. Casou jovem
e mudou-se para a cidade em busca de melhor vida. Sem opções de emprego a minha
mãe nunca se acomodou e fazia alguns trabalhos de cabeleireira ao
domicilio…nunca se queixou…foi mãe jovem e sempre achou que por esse facto era
a mulher mais afortunada do mundo. Arranjou depois emprego num refeitório de
uma grande fábrica. Nunca teve qualquer tipo de formação mas a cozinha era a
sua grande paixão.
Depois de alguns anos no refeitório aventurou-se no seu grande
sonho…ter um negócio próprio de restauração. Quis o destino que o sonho se
concretizasse no ano de 1974… lembras-te 1974? O ano em que te tornaste livre?
Tinhas o quê? 10 anos?
Pois é…o sonho da minha mãe tem a idade da democracia.
O sonho nasceu pequeno, com pouco mais de 3 ou 4 colaboradoras. Com
muita dificuldade, muito trabalho e muitas noites sem dormir foi crescendo e
chegou a dar trabalho a mais de 20 pessoas. A minha mãe tem a 4ª classe.
Tu já criaste empregos Pedro? Quer dizer… criar mesmo… investir e
arriscar o que é teu … telefonema para o Relvas a pedir qualquer coisa para uma
amiga da Laura não conta como criar emprego. A minha mãe criou…por isso ela não
compreende muito bem onde errou. Tudo junto tem mais de 40 anos de descontos
para a segurança social. Sempre descontou aquilo que a lei lhe exigia. A lei
que tu e outros como tu… gente de tão abnegada dedicação, se entretém a
escrever, reescrever, anular, modificar… enfim… trabalhos de outra grandeza que
ela não compreende mas valoriza.
Pois como te digo, a minha mãe viu passar o verão quente, os tempos do
desenvolvimento sem paralelo, o fechar de todas as fábricas da região, os
tempos do oásis, as várias intervenções do FMI, as Expos, os Euros, do futebol
e da finança… e passou por isto tudo sempre a trabalhar como se não houvesse
amanhã. A pagar impostos todos os meses e todos os anos. IVA, IRC, IRS, IMI,
pagamentos por conta, pagamentos especiais por conta, por ter um toldo, por ter
a viatura decorada, por ter cão, de selo, de circulação, de radiodifusão… não
falhando um único desconto para a sua reforma, não falhando um único imposto. E
viu chegar as condicionantes da idade avançada sem lançar um queixume. E foi
resolvendo todos os seus problemas de saúde que inexoravelmente foram surgindo,
recorrendo a um seguro privado, tentando deixar para aqueles que realmente
necessitam, o apoio da segurança social. Em mais de 40 anos de contribuição não
teve um dia de baixa, não usufruiu de um cêntimo em subsídios de desemprego. E
ela dá voltas e voltas à cabeça e não há forma de se recordar onde possa ter falhado.
Mas certamente falhou…
Por isso Pedro, quando eu lhe li a tua carinhosa mensagem, que
certamente escreveste na companhia da Laura e com um cobertor a cobrir as
vossas pernas para poupar no aquecimento, ela comoveu-se, e cheia de remorsos
pediu-me que por esta via te endereçasse um sentido pedido de desculpas.
Pediu também para te dizer que se sente muito orgulhosa de com a
redução da sua pensão poder contribuir para que a tua missão na terra seja
coroada de sucesso.
És de facto único Pedro. A forma carinhosa como te referes aos
sacrifícios que os outros estão fazer, faz-me acreditar que quase os sentes
como teus. Sei que sofres por nós Pedro. Sei que cada emprego que se perde é
uma chaga que se abre no teu corpo…é um sofrimento atroz que te é imposto…e
tudo por culpa de quem? De gente como a minha pobre mãe que mesmo sem querer
tem levado toda uma vida a delapidar o património que é de todos. Por isso se a
conseguires ajudar a perceber onde errou ficar-te-ei eternamente agradecido. A
minha mãe ainda é daquele tipo de pessoas que não suporta a ideia de estar a
dever algo a alguém...ajuda-nos pois Pedro.
Aceita por favor, mais uma vez, em nome da minha mãe, sentidas
desculpas. Ela diz que apesar de reformada e com menos saúde vai continuar a
trabalhar para poder expiar o tanto mal que causou.
Continua Pedro… estás certamente no bom caminho, embora alguns milhões
de ingratos não o consigam perceber.
Não te detenhas…os génios raramente são reconhecidos em vida.
Um grande abraço para ti.
Um grande beijo para a Laura."

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