Em 2013, a exemplar Alemanha e a velha França vão juntar-se à depressão
geral.
"Uma das coisas divertidas da passagem de Ângela Merkel por Lisboa –
para além da “photo opportunity” do letreiro “governo de Portugal” – aconteceu
quando a chanceler, na conferência de imprensa ao lado de Passos Coelho,
lembrou a origem da crise do euro. Deve ter sido esquisito para quem está
habituado a culpar “o Sócrates” ter ouvido a todo-poderosa Ângela explicar que,
por causa da crise financeira desencadeada nos Estados Unidos, e da sua
propagação à Europa, os governos europeus desataram a apostar no investimento
público para conter o descalabro das suas economias. Só que entretanto os
investidores começaram a desconfiar de algumas economias (as mais frágeis) e a
duvidar da fiabilidade de alguns para pagar as respectivas dívidas. Esta foi a
explicação de Merkel, perante um Passos Coelho que arrumou a um canto o discurso
habitual do “vivemos acima das nossas possibilidades” e se concentrou no
verdadeiro desastre nacional – um grave problema de produção. Claro que Merkel
não recordou a parte em que a desconfiança dos investidores dispara quando o
governo grego assume que as suas contas estavam aldrabadas e, mais tarde, essa
desconfiança vai para o inferno no dia em que Ângela (e já lá vai tanto tempo)
começa a defender que os investidores deveriam ser co-responsabilizados pelas
falências dos países. E estamos nisto.
O “isto” revelado ontem pelo Eurostat é capaz de ser suficiente para
apagar o optimismo que restava nas almas mais crentes na bondade das políticas
europeias em curso – embora a cegueira política e económica seja difícil de
erradicar, e não faltam na história exemplos disso.
A zona euro está em recessão oficial, com a contribuição da sua outrora
quarta economia, a Espanha, da terceira, a Itália, e daquele país atavicamente
contra os preguiçosos do Sul chamado Holanda. No primeiro trimestre de 2013, a
exemplar Alemanha e a velha França deverão juntar-se à depressão geral.
A questão já não é do Sul e atinge em cheio o motor europeu. A Europa
enquanto espaço económico de sucesso, o território da prosperidade, acabou. Um
dia destes chegará a altura de declarar a falência e repartir os despojos e as
responsabilidades. A moeda disfuncional euro já não serve para nada.
Contrariamente ao pensamento dominante, o fim do euro pode não significar de
forma automática o fim da União Europeia enquanto espaço de partilha de algumas
políticas; pelo contrário: manter o euro rebentará com tudo em muito pouco
tempo."
Por Ana Sá Lopes, Directora Adjunta do jornal I
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